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Islã no Brasil

A imigração sírio-libanesa: por que a maioria era cristã

Entre o fim do século XIX e meados do XX, dezenas de milhares de sírios e libaneses chegaram ao Brasil registrados como 'turcos'. A maioria era cristã (maronita, ortodoxa ou melquita), não muçulmana. Confundir as duas coisas distorce a história e a demografia dessa imigração.

Navios ancorados no porto de Bremerhaven sob céu nublado Photo by Malte Luk

A imigração sírio-libanesa: por que a maioria era cristã

"Sírio-libanês" e "muçulmano" não são sinônimos. Quem veio do Levante para o Brasil entre o fim do século XIX e meados do XX era, na maioria, cristão: maronita, ortodoxo ou melquita1. Os registros de entrada pelo Porto de Santos entre 1908 e 1941 mostram de 45% a 67% de "católicos", categoria que juntava maronitas, católicos romanos e melquitas. A diferença entre esses dois números vem de dois estudos com recortes distintos (um por categoria de registro, outro por período), e por isso eles não se somam95. Muçulmanos eram poucos nesse fluxo, bem menos frequentes, até pelo menos os anos 19502. O número só cresceu de verdade a partir dos anos 1960, e cresceu mais ainda com as guerras na Síria e no Líbano1. Quem trata "sírio-libanês" ou "árabe" como sinônimo de "muçulmano" está invertendo a proporção real dessa história.

Por que "turcos", se não eram turcos

Close de passaportes poloneses e passagens de viagem, tema de viagem Photo by Jakub Zerdzicki

Até a Primeira Guerra Mundial, a região que hoje se divide entre Síria e Líbano não era um Estado independente. Era parte do Império Otomano. Quem embarcava para o Brasil trazia passaporte otomano, e as autoridades brasileiras anotavam essas pessoas de jeitos diferentes conforme a época: "turco-árabes", "turcos", "sírios" ou "libaneses"1. Foi por causa desse documento, e não de alguma origem turca, que "turco" virou apelido popular para sírio-libaneses e seus descendentes8.

A confusão continua viva no português do dia a dia. O título do romance de Jorge Amado A Descoberta da América pelos Turcos brinca justamente com ela8. Quase todos esses imigrantes eram árabes do Levante, e não turcos. Na religião, a maioria era cristã; uma parcela menor era muçulmana ou drusa1.

Quem eram, na religião

Veleiro majestoso navegando em mar aberto Photo by De Lemster Krant

Os registros oficiais brasileiros da época não separavam as igrejas cristãs umas das outras. Dividiam as pessoas só entre "católicos" e "acatólicos", sem contar quantos maronitas, católicos romanos ou melquitas havia no primeiro grupo91. Mesmo assim, dois levantamentos independentes chegam ao mesmo lugar: a maioria era cristã.

O sociólogo Clark Knowlton olhou as entradas pelo Porto de Santos entre 1908 e 1941 e encontrou católicos em 56% dos registrados como "turco-árabes", 45% dos "turcos", 67% dos "sírios" e 65% dos "libaneses"9. Ele mesmo avisava que os dados sobre religião eram insuficientes para uma análise sólida de um grupo tão diverso9. Knowlton separava os imigrantes por nacionalidade declarada. Isabella Ferreira Silva e Miriam de Oliveira Santos (2020) usaram outro recorte e chegaram a 54,6% de "católicos" e 45,4% de "não católicos" no mesmo porto, entre 1908 e junho de 19415. O método muda, mas a ordem de grandeza fica parecida.

Entre os cristãos, as maiores comunidades eram a maronita, a ortodoxa e a melquita. São igrejas do cristianismo oriental, diferentes entre si e diferentes do catolicismo romano, embora os registros brasileiros pusessem todas sob o rótulo de "católico"19. Muçulmanos, drusos e judeus vieram no mesmo fluxo, em número bem menor1. Os drusos pedem uma explicação à parte. A religião deles nasceu no Egito do século XI, como desdobramento do ismaelismo xiita, na época do califado fatímida, mas tem teologia própria: não é uma corrente do Islã sunita nem do xiita, e não é mais considerada parte do Islã tradicional12.

Por que tanta gente saiu: economia, guerra e recrutamento

Os historiadores da imigração apontam várias causas para a saída, sem que uma pese mais que as outras. Uma era econômica: artesãos e pequenos produtores perdiam espaço, e a população crescia mais depressa do que a terra cultivável permitia1. Outra era religiosa. Segundo Truzzi, os cristãos viviam subordinados numa sociedade de maioria islâmica, sob o domínio otomano tardio, e a própria administração turca alimentava divisões profundas entre drusos e cristãos no território do atual Líbano1.

Um exemplo dessa discórdia é o conflito de 1860 no Monte Líbano, entre camponeses maronitas e senhores drusos. O conflito se espalhou e mudou de natureza: a França apoiou os maronitas, o Reino Unido apoiou um grupo druso, e a administração otomana favoreceu o colapso da estrutura tradicional de poder7. Não vamos dar aqui o número de mortos. As fontes que reunimos confirmam as causas e o desfecho institucional (o Regulamento Orgânico de 1861, que deu ao Monte Líbano autonomia sob um governador cristão)7, mas nenhuma traz uma cifra de vítimas que possamos atribuir a uma fonte aceitável7.

Houve também um fator bem concreto: em 1909, o Império Otomano passou a obrigar os cristãos a servir no exército1. Truzzi cita um número de baixas: de 240 mil recrutados, 40 mil teriam morrido. Não encontramos esse número em nenhuma segunda fonte independente, nem o conferimos no texto original de Truzzi, então ele fica aqui como cifra de um único levantamento, não como dado fechado1. Esse recrutamento de 1909 é um episódio diferente da fome que atingiu o Monte Líbano durante a Primeira Guerra Mundial (1915–1918). Sobre a fome, não achamos fonte aceitável com números, e por isso não a quantificamos.

De mascate a comerciante

O caminho econômico típico desses imigrantes está bem documentado. O recém-chegado, em geral homem e solteiro, começava como mascate: comprava mercadoria na Rua 25 de Março, em São Paulo, e vendia a crédito para a população rural do interior2. Com algum capital e uma clientela fiel, muitos abriam venda, armazém ou bazar fixo, num cruzamento de estrada ou numa praça perto da igreja ou da estação de trem2. Os que se deram melhor passaram ao comércio de cereais e de gado e ao beneficiamento agrícola, e alguns viraram fazendeiros2. A família sustentava essa subida. Quem já estava estabelecido fornecia mercadoria em consignação e crédito aos parentes que iam chegando2.

São Paulo, capital e interior, foi o centro dessa imigração. Ainda assim, a colônia era pequena perto de outras correntes da época. No Censo de 1920, os 19.290 sírios e libaneses do estado de São Paulo eram 2,3% dos estrangeiros ali; os italianos eram 48,1%, e os espanhóis, 20,6%2. Cerca de 70% deles, 13.302 pessoas, viviam no interior, sobretudo no noroeste (São José do Rio Preto e Barretos) e no centro-norte do estado2.

E quantos imigrantes do Levante chegaram ao Brasil no período todo? Os próprios historiadores dizem que ninguém sabe ao certo. Os dados oficiais da época são fragmentados, e recortes diferentes (por porto, por nacionalidade declarada, por período) produzem cifras que não se comparam diretamente5. Muita gente cita a estimativa de 79.509 sírio-libaneses entre 1871 e 1947, atribuída à historiadora Giralda Seyferth. Não conseguimos conferir esse número na fonte original, então ele aparece aqui como cifra muito citada, e não como dado fechado10.

Quando e como os muçulmanos chegaram

Os muçulmanos fazem parte dessa história, mas chegaram em menor número e mais tarde. Na primeira leva, mais ou menos entre 1880 e 1930, muçulmanos, drusos e judeus vieram em número bem menor, junto com a maioria cristã1. Só a partir dos anos 1960 São Paulo começou a receber levas muçulmanas bem maiores, e esse movimento cresceu ainda mais com as guerras na Síria e no Líbano1.

Antes disso, porém, já existia uma instituição. Em 1929, cerca de vinte descendentes de árabes, a maioria de origem palestina, fundaram em São Paulo a Sociedade Beneficente Muçulmana, a primeira entidade islâmica organizada do país6. A primeira sede religiosa foi uma pequena mesquita na Rua da Mooca, aberta junto com a entidade, em 1929. O prédio maior, onde funciona hoje a Mesquita Brasil, fica no Cambuci, na Avenida do Estado. Ficou pronto em 1955, segundo a Agência de Notícias Brasil-Árabe, ou em 1956, segundo Henry Nakashima (PUC-SP)13. Outras datas que às vezes aparecem, como 1940 e 1960, não têm fonte rastreável. E, se você conhece a mesquita xiita do Brás, saiba que é outra: dela tratamos em Mesquitas e entidades islâmicas do Brasil13.

A Guerra Civil Libanesa (1975–1990) trouxe uma segunda onda, com mais variedade religiosa que a primeira. Ela se juntou a um movimento que já vinha desde o fim dos anos 1960 e teve entre seus destinos Foz do Iguaçu, onde já existia uma colônia árabe-libanesa consolidada4. Vieram cristãos, sunitas, xiitas e drusos4. Em Foz, a mesquita sunita Omar Ibn Al-Khattab foi inaugurada em 1983, e a comunidade xiita se organizou separadamente, pela Sociedade Beneficiente Islâmica4. A história dessa comunidade e do comércio na Tríplice Fronteira fica para outro artigo. Aqui basta saber que Foz foi um dos destinos da segunda onda.

Dois números que não competem entre si

Você provavelmente já viu dois números citados como se fossem respostas rivais à mesma pergunta: quantos muçulmanos há no Brasil hoje? Eles não são rivais, porque medem coisas diferentes. A Agência de Notícias Brasil-Árabe cita uma estimativa institucional, sem base censitária declarada, de 10 milhões de imigrantes e descendentes de árabes no país, dos quais cerca de 2 milhões seriam muçulmanos e o resto cristãos6. Já o Censo 2010 do IBGE contou 35.166 pessoas que se declararam muçulmanas em todo o Brasil, de qualquer origem: 0,02% da população, acima dos 22.000 de 1991 e dos 27.116 de 20003.

O primeiro número estima quem tem ascendência árabe, segundo a declaração das próprias pessoas, e inclui sobretudo cristãos e gente que não pratica religião nenhuma. O segundo é a religião que cada um declarou ao recenseador, sem nenhuma relação com origem étnica. Os dois não medem o mesmo universo, e pôr um ao lado do outro como se um corrigisse o outro distorce ambos63. Usamos esses números aqui só até onde eles servem ao argumento deste texto. A demografia muçulmana atual, incluindo a diferença entre descendentes de imigrantes e brasileiros convertidos sem ascendência árabe, fica para o próximo artigo desta série.

Não é a mesma história dos malês

Vale separar bem esta imigração de outro capítulo do Islã no Brasil, de que já tratamos em outro artigo: a Revolta dos Malês, em Salvador, em 1835. Os malês eram africanos islamizados trazidos para o Brasil como escravizados, ainda no século XIX e antes deste fluxo. A imigração sírio-libanesa veio décadas depois, formada por gente livre, na maioria cristã, que saiu de casa por pressão econômica e política, e não por captura e tráfico11. Os dois episódios não se cruzam de forma relevante na demografia, na origem étnica ou no tempo. Juntá-los numa única "história do Islã no Brasil" apaga a diferença mais importante entre eles: uns vieram por escolha, outros vieram acorrentados.

Leia antes

  • A Revolta dos Malês (/artigos/revolta-dos-males) — o episódio de 1835 em Salvador, para entender por que não deve ser fundido com esta imigração, décadas mais tarde e de natureza inteiramente diferente.

Leia depois

  • Números reais — Censo 2010 vs. estimativas comunitárias (a publicar) — aprofunda a demografia muçulmana atual do Brasil, incluindo a distinção entre descendentes de imigrantes e conversos.
  • Foz do Iguaçu e a Tríplice Fronteira (a publicar) — desenvolve a comunidade libanesa xiita local e o comércio da região, apenas mencionados aqui.
  • Comunidades e entidades islâmicas no Brasil (a publicar) — a Sociedade Beneficente Muçulmana e a Mesquita Brasil, citadas aqui como marco de 1929, ganham desenvolvimento institucional próprio.
  • Laicidade brasileira (a publicar) — o arcabouço constitucional (CF/88, art. 5º, VI; art. 19, I) sob o qual a comunidade muçulmana brasileira, em parte descendente desta imigração, pratica sua fé.

Fontes

Fontes

  1. Truzzi, Oswaldo. "Religiosidade Cristã entre Árabes em São Paulo: Desafios no Passado e no Presente." Religião & Sociedade, v. 36, n. 2, 2016. DOI 10.1590/0100-85872016v36n2cap12. https://scielo.br/scielo.php?pid=S0100-85872016000200266&script=sci_arttext (abre em nova aba) · 🟢 🔍 (lido via ferramenta de busca de página, não linha a linha do HTML completo).

    ↩
  2. Truzzi, Oswaldo. "Sírios e libaneses no oeste paulista – décadas de 1880 a 1950." Revista Brasileira de Estudos de População, v. 36, 2019. DOI 10.20947/S0102-3098a0086. https://www.scielo.br/j/rbepop/a/sf95nNCvLpJBqKbqqqPKMhQ/?lang=pt (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  3. Castro, Cristina Maria de; Vilela, Elaine Meire. "Muçulmanos no Brasil: uma análise socioeconômica e demográfica a partir do Censo 2010." Religião & Sociedade, v. 39, n. 1, 2019. http://www.scielo.br/j/rs/a/SQqLMm6gR4hJkvYynMX7g4M/?lang=pt (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  4. Silva, Regina Coeli Machado e. "Reordenação de identidade de imigrantes árabes em Foz do Iguaçu." Trabalhos em Linguística Aplicada, 2008. https://www.scielo.br/j/tla/a/RFFBKcKz8XpmMzBnrLdKQ4x/?lang=pt (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  5. Silva, Isabella Ferreira; Santos, Miriam de Oliveira. "Métodos Quantitativos e estudos de imigração: breve análise das estatísticas da imigração síria e libanesa." Diálogos Internacionais, v. 7, n. 78, 30 de dezembro de 2020. https://dialogosinternacionais.com.br/?p=1600 (abre em nova aba) · 🟡 🔍 (veículo de divulgação acadêmica, não claramente pariado ao nível dos periódicos SciELO acima).

    ↩
  6. Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA). "Primeira entidade islâmica do Brasil faz 75 anos." Sem data de publicação explícita localizada. https://anba.com.br/primeira-entidade-islamica-do-brasil-faz-75-anos-2/ (abre em nova aba) · 🟢 no domínio (docs/FONTES.md §6) 🔍.

    ↩
  7. Encyclopaedia Britannica. Entrada sobre a história do Líbano e o conflito de 1860. Acesso direto retornou HTTP 403 nesta pesquisa; conteúdo reconstruído por resultado de busca, não por leitura da página. https://www.britannica.com/place/Lebanon/Lebanon-in-the-Middle-Ages (abre em nova aba) · 🟢 🔍 — confirma causas e desfecho institucional do conflito de 1860; não confirma número de baixas e não cobre a classificação doutrinária dos drusos (ver F12).

    ↩
  8. Migalhas. "Turcos! Uma forma brasileira de designar todos os árabes, sejam eles da Síria, do Líbano ou, de fato e propriamente dito, da Turquia." 15 de maio de 2009. https://www.migalhas.com.br/quentes/84342/ (abre em nova aba) · 🟡 🔍.

    ↩
  9. Knowlton, Clark. Sírios e Libaneses: Mobilidade Social e Espacial. São Paulo: Anhambi, 1961. Citado via Truzzi (2016) 1, sem página exata. 🟢 🔍 (não acessado diretamente nesta pesquisa).

    ↩
  10. Estimativa de 79.509 imigrantes sírio-libaneses (1871–1947) atribuída a Giralda Seyferth (1990, p. 11); localizada apenas via síntese de resultados de busca nesta pesquisa, não por leitura direta do texto de Seyferth. ⚠️ FONTE ÚNICA / 🔍 — não confirmada por leitura direta.

    ↩
  11. Distância factual entre a imigração sírio-libanesa e a Revolta dos Malês (escravização forçada de africanos islamizados no século XIX anterior vs. imigração livre, majoritariamente cristã, a partir de 1880): datas e origens reunidas em Truzzi (2016) 1 e Truzzi (2019) 2. Ver também /artigos/revolta-dos-males.

    ↩
  12. Encyclopaedia Britannica. "Druze." Acesso: 11 de setembro de 2026. https://www.britannica.com/topic/Druze (abre em nova aba) · 🟢 (enciclopédia acadêmica, docs/FONTES.md §7) — confirma que a tradição drusa se originou no Egito do século XI, como desdobramento do ismaelismo xiita durante o califado fatímida, e que não é mais considerada parte do Islã tradicional.

    ↩
  13. Agência de Notícias Brasil-Árabe e Henry Nakashima (PUC-SP, 2012), lidos na íntegra na pesquisa de Mesquitas e entidades islâmicas do Brasil, que localiza a Mesquita Brasil no Cambuci e distingue a primeira mesquita da Rua da Mooca (1929) do prédio atual da Avenida do Estado (1955/1956). 🟢 (pesquisa própria do site, revisada pelo squad de checagem de fatos).

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