Glossário
Quase todo mal-entendido sobre o tema começa numa palavra usada com dois sentidos diferentes. Cada verbete distingue o texto, a leitura majoritária, a leitura jihadista e a reformista — porque tratá-las como uma só é o erro mais comum.
A
Alcorão · al-qurʾān
O Alcorão é o livro sagrado do Islã, tido pela tradição islâmica como a palavra literal de Deus revelada a Maomé ao longo de cerca de 23 anos.
Aiatolá · āyatullāh
Aiatolá é o título dos mais altos juristas do xiismo duodecimano, concedido ao fim de uma carreira acadêmica formal nos seminários de Qom e Najaf. Os "grandes aiatolás" servem de referência de emulação para os fiéis. Não há equivalente no sunismo — comparar aiatolás a "papas" ou muftis sunitas a "bispos" erra a estrutura das duas tradições.
D
F
Fiqh · fiqh
Fiqh é a jurisprudência islâmica: o esforço humano de deduzir regras concretas das fontes tidas como reveladas. É falível, plural e mutável — ao contrário da Sharia, o ideal normativo do qual deriva.
Fatwa · fatwā
Fatwa é o parecer emitido por um jurista qualificado (mufti) em resposta a uma consulta sobre uma questão de direito islâmico. Não é sentença nem lei: não vincula por si, e fatwas contraditórias entre juristas coexistem normalmente.
Fard al-'ayn · farḍ al-ʿayn
Fard al-'ayn é a categoria jurídica islâmica para obrigações que recaem sobre cada muçulmano capaz de cumpri-las, individualmente — em oposição a fard al-kifaya, obrigação coletiva da comunidade, que se extingue quando cumprida por um número suficiente de seus membros. A tese de Abdullah Azzam, de 1984, de que a jihad ofensiva se tornara fard al-'ayn é a matriz doutrinária do jihadismo transnacional moderno.
H
Hudud · ḥudūd
Hudud são os crimes com penas fixas que a doutrina jurídica clássica trata como "direito de Deus": furto (amputação), relações sexuais fora do casamento (açoites; apedrejamento para casados), acusação infundada de adultério, consumo de álcool e banditismo.
Hadith · ḥadīth
Hadith é o registro de um dito, ato ou aprovação tácita atribuído a Maomé, composto de uma cadeia de transmissores (isnad) e um conteúdo (matn).
I
Islamismo
Islamismo é a ideologia política moderna, nascida no século XX, que sustenta que o Estado e a lei devem ser organizados pelo Islã.
Islã · islām
Islã é a religião monoteísta surgida na Arábia no século VII a partir da pregação de Maomé — fé, prática ritual e pertencimento a uma comunidade de fiéis, sem que isso implique, por si, nenhuma posição sobre como o Estado deve ser organizado.
Irmandade Muçulmana · al-Ikhwān al-Muslimūn
A Irmandade Muçulmana é o movimento fundado em 22 de março de 1928, em Ismailia, Egito, por Hassan al-Banna e seis companheiros — o marco fundacional mais citado pela literatura sobre a origem do islamismo como movimento político moderno.
Ijtihad · ijtihād
Ijtihad é o raciocínio jurídico independente do jurista qualificado diante das fontes do direito islâmico — o mecanismo pelo qual o fiqh é derivado da Sharia.
Ijma · ijmāʿ
Ijma é o consenso dos juristas qualificados — não da população em geral — como uma das quatro fontes do direito islâmico na teoria clássica sunita, ao lado do Alcorão, da Sunna e do qiyas.
J
Jizya · jizya
Jizya é o tributo per capita que a tradição jurídica islâmica clássica impunha aos não muçulmanos "do Livro" sob domínio islâmico, fundado no Alcorão 9:29, pago em troca de proteção estatal e como contrapartida ao estatuto de dhimmi.
Jihadismo
Jihadismo é a vertente do islamismo que escolhe a violência armada como método para impor o projeto de um Estado organizado pelo Islã.
Jihad · jihād
Jihad é um termo com espectro de sentidos, do esforço ético e espiritual do fiel comum à guerra religiosamente sancionada; não tem tradução única, e "guerra santa" — a mais comum na imprensa ocidental — corresponde apenas a um desses sentidos, e não ao mais frequente na vida cotidiana da maioria dos muçulmanos.
Jahiliyya · jāhiliyya
Jahiliyya designa, na tradição islâmica, o estado de "ignorância" atribuído às sociedades árabes anteriores à revelação do Alcorão a Maomé, no século VII. No uso do islamismo radical do século XX, a partir de Sayyid Qutb, a palavra ganhou um segundo sentido: a caracterização de sociedades muçulmanas contemporâneas — inclusive de maioria muçulmana — como tendo retornado a esse mesmo estado. Essa extensão é de Qutb e da corrente que o segue, não da tradição majoritária.
M
P
Q
S
Sunna · sunna
Sunna é o exemplo normativo de Maomé — o que ele fez, disse e aprovou tacitamente —, conhecido pela tradição islâmica por meio dos hadiths.
Sharia · sharīʿa
Sharia é o conjunto de normas que a tradição islâmica tem como de origem divina, inferidas do Alcorão e da Sunna — um ideal normativo, não um código promulgado. Sua elaboração concreta, feita por juristas humanos e por isso falível e plural, é o fiqh.
Salafismo · salafiyya
Salafismo é a corrente doutrinária sunita que prega o retorno à prática das três primeiras gerações de muçulmanos (os salaf), rejeitando a mediação das escolas jurídicas clássicas desenvolvida ao longo de treze séculos.
Salafismo quietista
Salafismo quietista é o ramo majoritário do salafismo, definido pela tipologia acadêmica de referência de Quintan Wiktorowicz (2006) como puristas e apolíticos, focados em pureza ritual e doutrinária.
T
Talaq · ṭalāq
Talaq é o repúdio unilateral do casamento pelo marido, no direito de família clássico islâmico — ato que não depende de causa, processo judicial ou consentimento da mulher. A mulher, para se divorciar, precisa de acordo com devolução do dote (khul') ou de decisão judicial. É a assimetria estrutural do estatuto pessoal islâmico — o campo em que a aplicação da Sharia mais afeta vidas hoje, bem mais do que o penal.
Takfir · takfīr
Takfir é o ato de declarar um muçulmano infiel — kafir — e, na lógica de grupos jihadistas, torná-lo por isso passível de morte. A tradição clássica cercou o ato de advertências severas, pelo risco de fragmentar a comunidade em guerra civil. Sayyid Qutb, no século XX, estendeu a sociedades e governos inteiros a categoria vizinha de jahiliyya (a ignorância pré-islâmica); foram seus sucessores que converteram essa condenação em takfir explícito, e é essa conversão — não a doutrina majoritária — o que explica por que grupos como o Estado Islâmico (EI, ex-ISIS, também chamado Daesh) matam majoritariamente outros muçulmanos.