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Verbete

Hudud

Hudud · ḥudūd (حدود), "limites"

Hudud são os crimes com penas fixas que a doutrina jurídica clássica trata como "direito de Deus": furto (amputação), relações sexuais fora do casamento (açoites; apedrejamento para casados), acusação infundada de adultério, consumo de álcool e banditismo.

O que a doutrina clássica exige. A teoria jurídica clássica cercou essas penas de requisitos probatórios severos: quatro testemunhas oculares do próprio ato para relações sexuais fora do casamento, confissão retratável a qualquer momento, e a máxima jurídica clássica de que qualquer dúvida razoável afasta a pena11. A pena de apedrejamento para quem é casado deriva da Sunna — não há versículo do Alcorão que a estabeleça11. Aplicados à letra, esses requisitos tornam a condenação quase impossível.

Como Estados aplicam hoje. O Código Penal Islâmico do Irã, promulgado em 2013, ilustra a distância entre essa teoria e a prática estatal. O artigo 220 autoriza a aplicação de hudud não previstos explicitamente no código12. O artigo 225 prevê apedrejamento por zina (relações sexuais fora do casamento) para quem preenche as condições de ehsan, definidas no artigo 226 — casamento permanente, consumado, com o agente são e púbere no momento e disponibilidade sexual atual do cônjuge; se o apedrejamento for inexequível, a pena passa a enforcamento quando o crime foi provado por testemunho, e cem açoites nos demais casos345. Nenhuma dessas cláusulas processuais está no Alcorão: são decisão de quem redigiu o código.

O próprio Estado iraniano não respeitou seus próprios limites declarados. O chefe do Judiciário enviou uma diretiva de moratória ao apedrejamento em dezembro de 2002 — e ela não foi cumprida: a Anistia Internacional documenta apedrejamentos posteriores à diretiva, entre eles o de Ja'far Kiani, em 5 de julho de 20076. Segundo a Human Rights Watch, o último apedrejamento conhecido ocorreu em 2009; a Iran Human Rights registra 201078. Sentenças de apedrejamento continuam a ser proferidas7.

Como leem os reformistas. Juristas reformistas contestam a legitimidade da coerção estatal em si, não apenas os detalhes processuais. Abdullahi Ahmed An-Na'im afirma que "a aplicação coercitiva da xaria pelo Estado trai a insistência do Alcorão pela aceitação voluntária do Islã" e defende, para que a fé seja por convicção, "um Estado secular, que seja neutro em relação à doutrina religiosa"9. Dentro da própria escola oficial do Irã, a ja'fari, houve dissenso concreto: o grande aiatolá Yousef Saanei, morto em 2020, contestou outra regra do mesmo código — a indenização por sangue da vítima mulher pela metade da do homem — com fatwa própria pela igualdade10.

A crítica mais precisa a hudud, portanto, não é dizer que "o Islã manda apedrejar": é mostrar que um Estado específico escolheu, entre opções e requisitos disponíveis dentro da própria tradição jurídica, os mais severos e os menos garantistas — e que outros juristas da mesma tradição jurídica discordam publicamente.

Não confundir com: ta'zir, as penas discricionárias que o juiz ou o Estado fixam para tudo que não é hudud — na prática, a maior parte do direito penal dos países que invocam a Sharia; qisas, a retaliação por homicídio e lesão corporal, tratada como direito privado da vítima ou de sua família, não como "direito de Deus".

Leia mais: Sharia vs. fiqh: a distinção que os debates ignoram

Fontes

Fontes

  1. Marzieh Tofighi Darian, "Between Law and Sharīʿa: The Principle of Legality under Iran's New Islamic Penal Code (Part I)", Islamic Law Blog, Harvard Law School, 22 de novembro de 2015 — https://islamiclaw.blog/2015/11/22/between-law-and-shari%CA%BFa-the-principle-of-legality-under-irans-new-islamic-penal-code-part-i/ (abre em nova aba) · publicação acadêmica assinada, hospedada pela Harvard Law School · 🟢

  2. Iran Human Rights (IHRNGO, Oslo), "Death Penalty According to Iranian Law" — https://www.iranhr.net/en/articles/4725/ (abre em nova aba) · ONG da diáspora, referência internacional na contagem de execuções no Irã · sustenta a história legislativa do Código Penal Islâmico de 2013: aprovação pelo Majlis em abril, ratificação pelo Conselho dos Guardiões em 1º de maio de 2013 · 🟢/🟡

  3. Iran Human Rights Documentation Center (IHRDC), English Translation of Books I & II of the New Islamic Penal Code, 8 de abril de 2014 — https://iranhrdc.org/english-translation-of-books-i-ii-of-the-new-islamic-penal-code/ (abre em nova aba) · tradução inglesa de referência do código de 2013 · 🟢 com atribuição

  4. ACCORD — Austrian Centre for Country of Origin and Asylum Research and Documentation, resposta de consulta sobre o Irã [a-9861-1], acervo do ecoi.net, documento #1075008 — https://www.ecoi.net/en/document/1075008.html (abre em nova aba) · centro de documentação de asilo; reproduz os arts. 224 a 227 citando a tradução do IHRDC 3 · 🟢

  5. ARTICLE 19, "Iran: Horrific killing of Alireza Fazeli-Monfared shines light on brutal repression of LGBTQ people", 12 de maio de 2021, acervo do ecoi.net, documento #2051627 — https://www.ecoi.net/en/document/2051627.html (abre em nova aba) · organização de liberdade de expressão; reprodução independente do art. 226 · 🟢

  6. Anistia Internacional, Iran: End executions by stoning, janeiro de 2008, índice MDE 13/001/2008 — https://www.amnesty.org/en/documents/mde13/001/2008/en/ (abre em nova aba) · ONG global com metodologia pública · sustenta a diretiva de moratória de dezembro de 2002 e o apedrejamento de Ja'far Kiani, em 5 de julho de 2007, na província de Qazvin · 🟢

  7. Human Rights Watch, "Iran: Proposed Penal Code Retains Stoning", 3 de junho de 2013 — https://www.hrw.org/news/2013/06/03/iran-proposed-penal-code-retains-stoning (abre em nova aba) · ONG global com metodologia pública · sustenta que o último apedrejamento conhecido ocorreu em 2009 e que sentenças continuavam a ser proferidas · 🟢

  8. Iran Human Rights (IHRNGO), "Ways to Restrict the Death Penalty" — https://iranhr.net/en/articles/6646/ (abre em nova aba) · registra o apedrejamento como executado pela última vez em 2010, divergindo de 7, que registra 2009 · 🟢/🟡

  9. "Abdullahi Ahmed An-Na'im: sobre direitos humanos, o Estado secular e a xaria atualmente", O Correio da UNESCO, 15 de março de 2019 — https://courier.unesco.org/pt/articles/abdullahi-ahmed-naim-sobre-direitos-humanos-o-estado-secular-e-xaria-atualmente (abre em nova aba) · entrevista publicada por organismo multilateral, em português; as duas frases entre aspas vêm daqui · 🟢

  10. Zahra Kazemi et al., "The Equality of Blood Money for Men and Women: Ayatollah Saanei's Novel Hermeneutic in Gender Equality in Shiite Islam", Women & Criminal Justice, 33(1), 2023 — https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/08974454.2021.1975015 (abre em nova aba) · periódico acadêmico revisado por pares · 🟢

  11. Rudolph Peters, Crime and Punishment in Islamic Law: Theory and Practice from the Sixteenth to the Twenty-First Century, Cambridge University Press, 2005, cap. 2 "The classical doctrine" (pp. 6–68) — quatro testemunhas oculares para zina: pp. 14–15, 60; confissão retratável até a execução da pena: p. 14; doutrina de shubha (dúvida razoável afasta a pena hadd): pp. 21–22; apedrejamento fundado em hadith, não no Alcorão, que em 24:2 só prevê o açoite: pp. 60, 154, 159 · obra de referência acadêmica padrão · 🟢 · paginação confirmada por busca indexada do Google Livros (trechos com número de página da edição impressa, cruzados entre buscas distintas), não por leitura corrida nem por exemplar físico ou PDF conferido; cotejo com exemplar físico ou institucional recomendado antes da publicação final

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