Verbete
Salafismo
salafismo · salafiyya (سلفية), de salaf, "os antepassados [piedosos]"
Salafismo é a corrente doutrinária sunita que prega o retorno à prática das três primeiras gerações de muçulmanos (os salaf), rejeitando a mediação das escolas jurídicas clássicas desenvolvida ao longo de treze séculos.
O salafismo não é, por si, sinônimo de violência nem de projeto político. A tipologia acadêmica de referência para o campo, formulada por Quintan Wiktorowicz em 2006, divide o movimento em três ramos que é erro grave misturar: purista/quietista — a maioria, apolítica, focada em pureza ritual e doutrinária —, político — que participa de instituições e disputa espaço público — e jihadista — minoria que legitima a violência armada1. A distinção não é cosmética: dela depende separar um fiel que reza cinco vezes ao dia e evita qualquer envolvimento político de um grupo armado como o Estado Islâmico, que se reivindica salafista-jihadista.
Essa tipologia, porém, é ponto de partida do campo acadêmico, não veredito fechado. Uma revisão crítica publicada em 2023 na Journal of Political Ideologies argumenta que ela trata quietismo como sinônimo automático de apoliticismo e subestima a fluidez entre as três categorias, sobretudo depois das Primaveras Árabes, quando salafistas antes quietistas migraram para a política institucional em países como o Egito e a Tunísia. A tríade de Wiktorowicz segue sendo a referência padrão, mas deve ser lida como modelo analítico sujeito a revisão, não como classificação definitiva de cada indivíduo ou grupo1.
O jihadismo combina uma leitura salafista das fontes com o takfir expansivo e a jihad como obrigação individual — mas isso descreve apenas o ramo jihadista da tipologia, não o salafismo como um todo. O caso que melhor ilustra por que a fé rigorosa não equivale a projeto político armado é o salafismo quietista, o ramo majoritário do movimento.
Não confundir com: salafismo quietista, o ramo majoritário e apolítico dentro da própria tipologia; nem com jihadismo, que é apenas um dos três ramos e o único que legitima a violência armada.
Leia mais: Islã, islamismo e jihadismo: por que não são graus de uma mesma escala
Fontes
Fontes
Wiktorowicz, Quintan. "Anatomy of the Salafi Movement." Studies in Conflict & Terrorism, 29(3), 2006, pp. 207–239; revisão crítica em Journal of Political Ideologies, 2023. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/13569317.2023.2215726 (abre em nova aba) · 🟢
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