Verbete
Takfir
takfir · takfīr (تكفير), "declarar infiel"
Takfir é o ato de declarar um muçulmano infiel — kafir — e, na lógica de grupos jihadistas, torná-lo por isso passível de morte. A tradição clássica cercou o ato de advertências severas, pelo risco de fragmentar a comunidade em guerra civil. Sayyid Qutb, no século XX, estendeu a sociedades e governos inteiros a categoria vizinha de jahiliyya (a ignorância pré-islâmica); foram seus sucessores que converteram essa condenação em takfir explícito, e é essa conversão — não a doutrina majoritária — o que explica por que grupos como o Estado Islâmico (EI, ex-ISIS, também chamado Daesh) matam majoritariamente outros muçulmanos.
Na doutrina clássica
A tradição islâmica clássica trata o takfir como ato de altíssimo risco doutrinário: declarar outro muçulmano infiel abre caminho, na lógica interna do próprio sistema, para violência contra ele. Por isso os juristas clássicos o cercaram de requisitos e advertências, reservando-o a casos excepcionais e desaconselhando seu uso amplo justamente pelo potencial de fragmentar a comunidade.
Essa cautela foi formalizada institucionalmente: a Mensagem de Amã, declaração de 9 de novembro de 2004, e os Três Pontos da conferência islâmica internacional de Amã, de julho de 2005, reconhecem a validade de oito escolas jurídicas — quatro sunitas, duas xiitas, a ibadi e a zahiri — e proíbem expressamente o takfir entre seus aderentes3. É a autoridade religiosa majoritária, sunita e xiita, reunida institucionalmente, que veda o que as correntes jihadistas praticam — a distinção entre as duas leituras não é uma nuance acadêmica: é uma linha que a própria tradição traçou.
A virada de Sayyid Qutb e o uso pelo Estado Islâmico
Sayyid Qutb, em Ma'alim fi al-Tariq ("Marcos", 1964)12, estendeu a sociedades e governos muçulmanos inteiros a categoria de jahiliyya (a ignorância pré-islâmica): não apenas indivíduos, mas ordens sociais inteiras estariam fora do Islã vivido, o que na leitura de seus sucessores licencia violência contra elas129.
Se Qutb praticou takfir, porém, é disputado — e a leitura mais documentada diz que não. Os dois principais especialistas nele em língua inglesa sustentam o contrário: William Shepard registra que Qutb é "bem menos inclinado a rotular indivíduos de descrentes (kafir)" do que os qutbistas que o seguiram, e que interpretar sua jahiliyya como takfir é um mal-entendido frequente sobre ele7; a resenha de Richard Phelps sobre a biografia de John Calvert resume a mesma conclusão: Calvert sustenta que Qutb nunca caracterizou seus opositores como infiéis, ao contrário do que fizeram os sucessores, e localiza na ambiguidade do texto — não numa doutrina explícita — a chave de seu legado8. A leitura oposta existe e é corrente na literatura de contraterrorismo, mas mesmo ela formula de modo indireto: para o Combating Terrorism Center de West Point, as denúncias amplas de Qutb "ajudaram a determinar" a tendência takfirista dos jihadistas posteriores9. As duas leituras concordam nisso: mesmo a mais crítica a Qutb não o descreve praticando takfir contra indivíduos — descreve-o preparando o terreno para quem praticou.
Quem converteu a condenação de sociedades em takfir explícito foram os sucessores, dos assassinos de Anwar Sadat, em 1981, ao Estado Islâmico. Este o aplicou de forma sistemática: sua doutrina declara que "todos os muçulmanos xiitas são apóstatas que merecem a morte"10, e a excomunhão alcançou também sunitas — grupos jihadistas rivais, a própria Al-Qaeda e dissidentes internos1011. Foi a ponto de jihadistas ligados à Al-Qaeda, historicamente mais contidos no uso do takfir, acusarem o grupo de excesso e compará-lo aos carijitas410.
Por que jihadistas matam sobretudo muçulmanos
O National Counterterrorism Center dos Estados Unidos, no 2011 Report on Terrorism, registra que, entre os casos ocorridos de 2007 a 2011 em que a filiação religiosa das vítimas de terrorismo pôde ser determinada, entre 82% e 97% delas eram muçulmanas5. É um dado que mede a proporção de vítimas muçulmanas dentro de um universo restrito — só os casos com filiação identificada, num período específico — e não deve ser somado a outro tipo de dado, como a distribuição geográfica das mortes por terrorismo. Nessa segunda métrica, o Global Terrorism Database, da Universidade de Maryland, registrou que, em 2016, o Oriente Médio e o Norte da África concentraram 55% das mortes globais por terrorismo, contra 0,7% na Europa Ocidental6. As duas medidas, de fontes e metodologias diferentes, apontam na mesma direção sem se somarem: o jihadismo mata majoritariamente muçulmanos, e o faz sobretudo em países de maioria muçulmana.
Não confundir com: jahiliyya, o diagnóstico que a corrente herdeira de Qutb usa para licenciar o takfir contra sociedades inteiras — jahiliyya é a condição atribuída; takfir é a declaração que essa condição viabiliza, passagem que o próprio Qutb evitou fazer quanto a indivíduos7. Também não confundir com a apostasia (o abandono voluntário do Islã por quem antes se identificava como muçulmano): takfir é a declaração feita por terceiros de que alguém deixou de ser, ou nunca foi, muçulmano em sentido válido — mesmo que a pessoa declarada continue a se identificar como tal.
Leia mais: Islã, islamismo e jihadismo: por que não são graus de uma mesma escala
Fontes
Fontes
Roy, Olivier. Globalized Islam: The Search for a New Ummah. Columbia University Press, 2004. https://cup.columbia.edu/book/globalized-islam/9780231134996/ (abre em nova aba) · 🟢
↩Tibi, Bassam. Islamism and Islam. Yale University Press, 2012. https://yalebooks.yale.edu/book/9780300159981/islamism-and-islam/ (abre em nova aba) · 🟢
↩Mensagem de Amã, declaração de 9 de novembro de 2004, e os Três Pontos da conferência islâmica internacional de Amã, julho de 2005. Texto oficial, Royal Islamic Strategic Studies Centre (RISSC) — https://rissc.jo/wp-content/uploads/2018/12/Amman_Message-EN.pdf (abre em nova aba) · resumo oficial em https://ammanmessage.com/summary/ (abre em nova aba) · documento primário, usado para o que ele próprio declara · 🟢
↩Brookings, "ISIS vs. Al Qaeda: Jihadism's global civil war." https://www.brookings.edu/articles/isis-vs-al-qaeda-jihadisms-global-civil-war/ (abre em nova aba) · 🟢
↩National Counterterrorism Center (EUA), 2011 Report on Terrorism. https://fas.org/irp/threat/nctc2011.pdf (abre em nova aba) · 🟢 com atribuição
↩START (National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism, Universidade de Maryland), "Terrorist attack deaths increase in Iraq, the West, despite decrease worldwide", comunicado de imprensa, 14 de agosto de 2017. https://www.start.umd.edu/news/terrorist-attack-deaths-increase-iraq-west-despite-decrease-worldwide (abre em nova aba) · 🟢 fonte primária institucional — confirma os números de 2016 usados no corpo
↩William E. Shepard (University of Canterbury), verbete "Qutb, Sayyid", Internet Encyclopedia of Philosophy — https://iep.utm.edu/qutb/ (abre em nova aba) · enciclopédia acadêmica revisada por pares, verbete assinado pelo tradutor e comentarista de Social Justice in Islam e autor de "Sayyid Qutb's Doctrine of Jahiliyya" (International Journal of Middle East Studies 35:4, novembro de 2003, pp. 521–545, atrás de paywall) · sustenta literalmente: "While Qutb labels societies jahili he is much less inclined to label individuals as unbelievers (kafir), unlike some of his Qutbist successors", e "Qutb's idea of jahiliyya [...] has often been interpreted as takfir, the declaration of individuals as unbelievers or apostates" · 🟢
↩John Calvert (Creighton University), Sayyid Qutb and the Origins of Radical Islamism, Columbia University Press, 2010 — primeira biografia acadêmica completa de Qutb em inglês. Citado aqui pela resenha de Richard Phelps, Middle East Quarterly 18:2, primavera de 2011 — https://www.meforum.org/middle-east-quarterly/book-reviews/sayyid-qutb-and-the-origins-of-radical-islamism (abre em nova aba) · a citação é de Phelps, não de Calvert: o livro está marcado 🔍 abaixo, e
↩ESTILO.md§7 proíbe aspas atribuídas a obra não lida no original. O que se lê na resenha é que Calvert descreve um Qutb que popularizou a condenação das sociedades muçulmanas ao seu redor como vivendo em estado de ignorância, mas que nunca as caracterizou como infiéis, ao contrário dos sucessores, e que é a ambiguidade de seu pensamento a chave de seu legado perigoso · 🟡 viés declarado: o Middle East Quarterly é publicado pelo Middle East Forum, think tank de orientação crítica ao islamismo (FONTES.md§4). Vale aqui por duas razões: a resenha contraria o interesse editorial da publicação, ao suavizar Qutb, e o ponto é idêntico ao de 7, que é fonte acadêmica independente · 🔍 verificação pendente: o livro de Calvert não foi lido no original; ao conseguir acesso, citar a página e dispensar a resenha.William McCants e Jarret Brachman, Militant Ideology Atlas: Research Compendium, Combating Terrorism Center, West Point, 2006, pp. 345–346 — https://ctc.westpoint.edu/wp-content/uploads/2012/04/Atlas-ResearchCompendium1.pdf (abre em nova aba) · representa a leitura mais forte, e ainda assim em formulação causal indireta: a definição estreita de identidade muçulmana e as denúncias amplas de Qutb "helped determine the tak[f]iri or excommunicative tendencies of subsequent jihadis" — o colchete corrige perda de ligadura no PDF original · 🟢
↩Cole Bunzel, From Paper State to Caliphate: The Ideology of the Islamic State, Brookings Institution, Analysis Paper nº 19, março de 2015 — https://www.brookings.edu/wp-content/uploads/2016/06/The-ideology-of-the-Islamic-State-1.pdf (abre em nova aba) · à época doutorando em Near Eastern Studies em Princeton, hoje na Hoover Institution/Stanford · p. 10: "all Shi`a Muslims are apostates deserving of death"; p. 30: jihadistas ligados à Al-Qaeda passaram a apontar no Estado Islâmico "extreme violence and takfir, the excommunication of fellow Sunni Muslims", chegando a compará-lo aos carijitas · 🟢
↩Hassan Hassan, The Sectarianism of the Islamic State: Ideological Roots and Political Context, Carnegie Endowment for International Peace, 13 de junho de 2016 — https://carnegieendowment.org/research/2016/06/the-sectarianism-of-the-islamic-state-ideological-roots-and-political-context (abre em nova aba) · independente de 10 · "The Islamic State promotes a political ideology and a worldview that actively classifies and excommunicates fellow Muslims", e registra a excomunhão de Ayman al-Zawahiri e de membros da Frente Nusra — o takfir alcançando o próprio campo jihadista · 🟢
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