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Verbete

Jahiliyya

jahiliyya · jāhiliyya (جاهلية), "ignorância"

Jahiliyya designa, na tradição islâmica, o estado de "ignorância" atribuído às sociedades árabes anteriores à revelação do Alcorão a Maomé, no século VII. No uso do islamismo radical do século XX, a partir de Sayyid Qutb, a palavra ganhou um segundo sentido: a caracterização de sociedades muçulmanas contemporâneas — inclusive de maioria muçulmana — como tendo retornado a esse mesmo estado. Essa extensão é de Qutb e da corrente que o segue, não da tradição majoritária.

O sentido clássico

No uso tradicional, jahiliyya nomeia o período e o estado das sociedades da Arábia antes da pregação de Maomé, no século VII — um estado superado pela revelação, não uma categoria aplicada a sociedades muçulmanas depois dela.

A virada de Sayyid Qutb

Sayyid Qutb, no livro Ma'alim fi al-Tariq ("Marcos", ou Milestones, 1964)12, escrito na prisão sob o regime de Gamal Abdel Nasser, argumenta que as sociedades contemporâneas — inclusive as de maioria muçulmana — vivem em jahiliyya, e que só a soberania de Deus na lei, a hakimiyya, resolve essa condição12. É o texto que fornece o vocabulário que jihadistas posteriores usam para declarar governos muçulmanos alvos legítimos12. O que Qutb generalizou, porém, foi a jahiliyya, não o takfir: ele estendeu o diagnóstico a sociedades inteiras, mas foi reticente em declarar indivíduos descrentes, e foram os sucessores que converteram uma coisa na outra3.

Essa extensão do conceito — de descrição de um passado pré-islâmico para diagnóstico de sociedades muçulmanas presentes — é de Qutb e da corrente que herdou seu vocabulário, não da tradição majoritária, que segue reservando o termo ao seu sentido histórico original.

Não confundir com: takfir, o ato de declarar alguém infiel — jahiliyya é o diagnóstico da condição de uma sociedade; takfir é a declaração que esse diagnóstico viabiliza contra pessoas e governos concretos — passagem que a corrente herdeira de Qutb fez, e que ele próprio evitou quanto a indivíduos3. Ver também jihad, o método que herdeiros de Qutb, como Abdullah Azzam, uniram a esse diagnóstico para justificar violência.

Leia mais: Islã, islamismo e jihadismo: por que não são graus de uma mesma escala

Fontes

Fontes

  1. Roy, Olivier. Globalized Islam: The Search for a New Ummah. Columbia University Press, 2004. https://cup.columbia.edu/book/globalized-islam/9780231134996/ (abre em nova aba) · 🟢

  2. Tibi, Bassam. Islamism and Islam. Yale University Press, 2012. https://yalebooks.yale.edu/book/9780300159981/islamism-and-islam/ (abre em nova aba) · 🟢

  3. William E. Shepard (University of Canterbury), verbete "Qutb, Sayyid", Internet Encyclopedia of Philosophyhttps://iep.utm.edu/qutb/ (abre em nova aba) · enciclopédia acadêmica revisada por pares; o verbete é assinado pelo tradutor e comentarista de Social Justice in Islam e autor de "Sayyid Qutb's Doctrine of Jahiliyya" (International Journal of Middle East Studies 35:4, novembro de 2003) · sustenta literalmente: "While Qutb labels societies jahili he is much less inclined to label individuals as unbelievers (kafir), unlike some of his Qutbist successors", e registra que sua ideia de jahiliyya "has often been interpreted as takfir" · 🟢

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