Verbete
Taqiyya
Photo by betül nur akyürek
Taqiyya · taqiyya (تقية), "precaução, cautela"
Taqiyya é a dissimulação da própria fé diante de perseguição ou risco de vida, doutrina que se desenvolveu sobretudo no xiismo, ramo com histórico documentado de perseguição por parte de Estados e maiorias sunitas123.
Por que se desenvolveu sobretudo no xiismo
Photo by Matthias Zomer
Não encontramos uma leitura direta e conferida de tradução em português dos versículos do Alcorão costumeiramente citados como base textual da doutrina, por isso não os citamos como referência fechada. O massacre de Husayn ibn Ali, neto de Maomé, em Karbala, em 680, é o evento que a tradição xiita tem como fundador. Segundo a Encyclopaedia Iranica, ele "tornou-se o evento constitutivo do xiismo como religião e o símbolo da vitória da maioria opressora sobre os poucos justos"1. E essa história de perseguição não ficou no passado: onde o xiismo é minoria, há perseguição documentada também em anos recentes. A Malásia declarou o xiismo "desviante" por fatwa de 1996, que os estados do país foram transformando em lei2. Segundo estudo de 2022 do instituto ISEAS, de Singapura, hoje todos os estados proíbem divulgar o xiismo, e quem desobedece a uma fatwa oficializada pode pegar multa de 5.000 ringgits, três anos de prisão ou as duas coisas4. A Arábia Saudita mantém discriminação sistemática contra cidadãos xiitas no emprego e em cargos de segurança, segundo relatório de 2009 da Human Rights Watch3.
O uso conspiratório do termo e por que ele não se sustenta
Fora da tradição jurídica que formulou o termo, circula outro uso dele: a ideia de que "muçulmanos estão autorizados a mentir sempre, logo nada do que digam vale". Essa formulação não descreve a doutrina. A taqiyya é autoproteção diante de ameaça de morte ou de dano6. Os juristas sunitas a restringem à coação e ao trato com não muçulmanos. Os xiitas a admitem em mais casos, inclusive para guardar segredos da comunidade ou evitar atrito com outros muçulmanos, mas os imames a tratavam como medida temporária para tempos de ameaça. E há acordo de que ela nunca autoriza matar um inocente5. Nada disso é licença para mentir em qualquer conversa do dia a dia. Já a versão conspiratória tem uma característica que, sozinha, já devia levantar desconfiança: é irrefutável por construção. Se alguém nega ter usado taqiyya, a negação vira, para quem já aceita a tese, mais uma prova de que a taqiyya está em curso. Uma afirmação que nenhuma evidência pode desmentir não é, tecnicamente, verificável. É dogma com roupa de análise.
Não confundir com: xiismo, o ramo do Islã em que a doutrina mais se desenvolveu, e não um sinônimo dela. Também não confundir a doutrina, um instituto jurídico-religioso cercado de condições, com o uso popular e conspiratório do termo descrito acima.
Leia mais: Os ramos do Islã: de onde vêm as divisões e o que separa cada um
Fontes
Fontes
Litvak, Meir, "KARBALA", Encyclopaedia Iranica, vol. XV, fasc. 5, pp. 550-556, publicado em 15 de dezembro de 2010, atualizado em 1º de novembro de 2012. https://iranicaonline.org/articles/karbala (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente. Qualificação profissional do autor não verificada nesta apuração; citado apenas como verbete assinado.
↩Critical Asian Studies (Taylor & Francis), "State-backed discrimination against Shia Muslims in Malaysia" (2017). https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/14672715.2017.1335848 (abre em nova aba) · 🟢 periódico acadêmico revisado por pares.
↩Human Rights Watch, "Denied Dignity: Systematic Discrimination and Hostility toward Saudi Shia Citizens" (3 de setembro de 2009). https://www.hrw.org/report/2009/09/03/denied-dignity/systematic-discrimination-and-hostility-toward-saudi-shia-citizens (abre em nova aba) · 🟢.
↩Mohd Faizal Musa, "Freedom of Religion in Malaysia: The Situation and Attitudes of 'Deviant' Muslim Groups", Trends in Southeast Asia n. 16, ISEAS – Yusof Ishak Institute, 2022. https://www.iseas.edu.sg/wp-content/uploads/2022/09/TRS16_22.pdf (abre em nova aba) · 🟢 — sustenta que a fatwa de 1996 declarou o xiismo desviante, que todos os estados da Malásia oficializaram a proibição das correntes xiitas (inclusive publicar e distribuir material) e que desobedecer a fatwa oficializada rende multa de RM 5.000, três anos de prisão ou ambos (p. 4, notas 5 e 6). Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.
↩Medoff, Louis, "TAQIYA i. In Shiʿism", Encyclopaedia Iranica, publicado em 25 de abril de 2015, atualizado em 16 de maio de 2018. https://www.iranicaonline.org/articles/taqiya-i-shiism/ (abre em nova aba) · 🟢 — sustenta que os imames tratavam a taqiyya como medida temporária para tempos de ameaça; que os sunitas a restringem ao trato com não muçulmanos e à coação, enquanto os xiitas a admitem de forma mais ampla (perigo, guarda de segredos, cortesia com não xiitas); e que é proibida se envolver matar um inocente. Lida diretamente em 23 de setembro de 2026, na cópia do web.archive.org de 23 de março de 2026 (o site da Iranica bloqueia leitura automatizada).
↩Stefon, Matt, "Taqiyyah", Encyclopaedia Britannica. https://www.britannica.com/topic/taqiyyah (abre em nova aba) · 🟢 — define a taqiyya como ocultar a crença e deixar de cumprir deveres religiosos sob ameaça de morte ou dano, e registra que as circunstâncias do seu uso são disputadas entre os estudiosos. Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.
↩