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Verbete

Taqiyya

Taqiyya · taqiyya (تقية), "precaução, cautela"

Taqiyya é a dissimulação da própria fé sob perseguição ou risco de vida — doutrina que se desenvolveu sobretudo no xiismo, ramo com histórico documentado de perseguição por parte de Estados e maiorias sunitas123. Não localizamos, no acervo deste site, fonte própria para a posição da tradição jurídica sunita majoritária sobre os limites da taqiyya, e por isso não a caracterizamos aqui. Também não localizamos uma leitura direta e cotejada de tradução em português dos versículos alcorânicos costumeiramente citados como base textual da doutrina, e por isso não os citamos aqui como referência fechada.

Por que se desenvolveu sobretudo no xiismo

O massacre de Husayn ibn Ali — neto de Maomé — em Karbala, em 680, é o evento que a tradição xiita tem como fundador: segundo a Encyclopaedia Iranica, ele "tornou-se o evento constitutivo do xiismo como religião e o símbolo da vitória da maioria opressora sobre os poucos justos"1. Essa história de perseguição não é só antiga: onde o xiismo é minoria, a perseguição a ele está documentada também em anos recentes. A Malásia declarou o xiismo "desviante" por fatwa de 1996, implementada por dez ou onze dos catorze estados do país, com pena de multa ou prisão para quem o propaga2; a Arábia Saudita mantém discriminação sistemática contra cidadãos xiitas em emprego e em cargos de segurança, segundo relatório de 2009 da Human Rights Watch3.

O uso conspiratório do termo, e por que ele não se sustenta

Um uso do termo circula fora da tradição jurídica que o formulou: a ideia de que "muçulmanos estão autorizados a mentir sempre, logo nada do que digam vale". Essa formulação não descreve a doutrina — que a tradição consultada limita a contextos de perseguição ou risco de vida, não a qualquer interação cotidiana — e tem uma propriedade que deveria, por si só, ser motivo de desconfiança: é irrefutável por construção. Se alguém nega ter usado taqiyya, essa negação vira, para quem já assume a tese, mais uma prova de que a taqiyya está em curso. Nenhuma afirmação que não possa ser desmentida por nenhuma evidência é, tecnicamente, uma afirmação verificável — é um dogma vestido de análise.

Não confundir com: xiismo, o ramo do Islã em que a doutrina mais se desenvolveu, não sinônimo dela; a doutrina em si, um instituto jurídico-religioso delimitado a contextos de perseguição, distinta do uso popular e conspiratório do termo descrito acima.

Leia mais: Os ramos do Islã: de onde vêm as divisões e o que separa cada um

Fontes

Fontes

  1. Litvak, Meir, "KARBALA", Encyclopaedia Iranica, vol. XV, fasc. 5, pp. 550-556, publicado em 15 de dezembro de 2010, atualizado em 1º de novembro de 2012. https://iranicaonline.org/articles/karbala (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente. Qualificação profissional do autor não verificada nesta apuração; citado apenas como verbete assinado.

  2. Critical Asian Studies (Taylor & Francis), "State-backed discrimination against Shia Muslims in Malaysia" (2017). https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/14672715.2017.1335848 (abre em nova aba) · 🟢 periódico acadêmico revisado por pares.

  3. Human Rights Watch, "Denied Dignity: Systematic Discrimination and Hostility toward Saudi Shia Citizens" (3 de setembro de 2009). https://www.hrw.org/report/2009/09/03/denied-dignity/systematic-discrimination-and-hostility-toward-saudi-shia-citizens (abre em nova aba) · 🟢.

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