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Verbete

Xiismo

A intrincada beleza das cúpulas douradas e dos desenhos ornamentados da Mesquita do Imã Ali, contra um céu nublado ao fundo. Photo by hassan mehdi Xiismo · shīʿat ʿAlī (شيعة علي), "o partido de Ali"

Xiismo é o ramo do Islã segundo o qual a liderança da comunidade, depois da morte de Maomé em 632, cabia a Ali ibn Abi Talib, primo e genro do profeta, e a seus descendentes, por designação, e não pela escolha da comunidade que o sunismo aceita como legítima1.

Uma disputa política, não teológica

Participantes de uma procissão de Ashura em Srinagar erguem as mãos em uma reunião religiosa ao ar livre. Photo by Muazam Mohi ud din

A divisão começa no episódio da Saqifa Bani Sa'ida: em 632, enquanto Ali cuidava do funeral de Maomé, um grupo de líderes da comunidade se reuniu e escolheu Abu Bakr como sucessor12. O grupo que ficaria conhecido como shi'at Ali defendeu que a liderança cabia a Ali por designação, não por eleição. Essa tese se apoia também no episódio de Ghadir Khumm, em 632, em que Maomé teria anunciado a autoridade de Ali sobre a comunidade3. Fontes sunitas registram amplamente o episódio de Ghadir Khumm. A divergência não é sobre se ele aconteceu, mas sobre o que significou: um pronunciamento sobre Ali, na leitura sunita, ou uma investidura política, na leitura xiita3.

O massacre de Husayn ibn Ali (filho de Ali e neto de Maomé) em Karbala, em 680, é o evento que a tradição xiita considera fundador. Husayn tentava se retirar sem jurar fidelidade ao califa Yazid quando foi interceptado por uma força omíada de 4.000 homens. Ele foi morto, seu acampamento foi saqueado, e as mulheres e crianças que sobreviveram foram feitas prisioneiras4. Segundo a Encyclopaedia Iranica, a tragédia "tornou-se o evento constitutivo do xiismo como religião e o símbolo da vitória da maioria opressora sobre os poucos justos"4. Essa carga simbólica sustenta até hoje a Ashura, principal rito de luto xiita.

Xiismo duodecimano: a maioria, o imamato e a ocultação

O xiismo não é um bloco único. O ramo majoritário é o duodecimano (Ithna'ashariyya). Segundo o Pew Research Center, com dados de 2010, os xiitas somam entre 162 e 211 milhões de pessoas, de 10% a 13% da população muçulmana mundial, e de 68% a 80% deles estão em quatro países: Irã, Paquistão, Índia e Iraque5.

A doutrina central do xiismo duodecimano é o imamato: a liderança da comunidade cabe só aos descendentes de Ali por Fátima. Ela começa em Ali e segue por linha designada até o décimo segundo Imã, Muhammad al-Mahdi, que, segundo a doutrina, entrou em ocultação (ghayba) no século IX6. A ocultação tem duas fases: a menor, do ano 260/874 ao 329/941, com quatro representantes sucessivos do Imã na terra; e a maior, cuja duração, segundo a doutrina, só Deus conhece6.

Essa doutrina sustenta também uma hierarquia clerical sem equivalente formal no sunismo. Dois princípios se somaram: o crente deve seguir o estudioso mais versado de seu meio, e existe autorização formal para exercer o raciocínio jurídico independente. Daí surgiu, no século XIX, a figura do jurista imamita supremo, o marja al-taqlid. Muhammad Hasan Najafi (m. 1850) e Murtada Ansari (1799–1864) costumam ser considerados os primeiros a receber esse posto7. Todo leigo duodecimano deve escolher um grande aiatolá vivo como referência jurídica, obrigação que hoje não tem equivalente formal no sunismo7.

Wilayat al-faqih: doutrina de uma corrente, não do xiismo inteiro

O Estado teocrático do Irã se funda na doutrina da wilayat al-faqih ("tutela do jurista")8: na ausência do Imã oculto, a autoridade e a liderança da comunidade passam a um jurista islâmico justo e piedoso, que governa diretamente o Estado15. Ruhollah Khomeini a formulou a partir de um conceito clássico do fiqh xiita, a autoridade de decidir sobre os assuntos de outra pessoa. Mas ela só ganhou os termos que hoje sustentam a Constituição iraniana nas aulas que Khomeini deu em Najaf entre 27 de janeiro e 8 de fevereiro de 1970. Vinte e cinco anos antes, em 1945, sua primeira formulação da tutela do jurista era mais estreita: uma assembleia de juristas deveria escolher um governante justo, e não governar ela mesma9. Não é doutrina do xiismo duodecimano como um todo: nenhum outro Estado xiita a adota, e ela continua contestada dentro do próprio clero, tema tratado em Wilayat al-faqih.

Ismaelismo: outra linha, outro imamato

O ismaelismo se separa do tronco duodecimano em meados do século II da Hégira (VIII d.C.), na morte do sexto Imã, Ja'far al-Sadiq: os primeiros ismaelitas traçam o imamato pela descendência de Isma'il ibn Ja'far al-Sadiq10. Hoje ele se divide sobretudo nos ramos nizarita e tayyibi musta'liano, espalhados como minorias religiosas por mais de vinte e cinco países10. No período fatímida, os ismaelitas tiveram Estado próprio, o califado fatímida, e escola jurídica própria10.

O que separa os dois ramos é a natureza do imamato. O nizarismo defende um Imã vivo e fisicamente presente (hazir imam), papel ocupado historicamente pela linhagem do Aga Khan. Karim Aga Khan, 49º Imã, morreu, e seu filho, Rahim Aga Khan, o sucedeu em 4 de fevereiro de 2025 como Aga Khan V, o 50º Imã hereditário dos muçulmanos xiitas ismaelitas11. O musta'lismo tayyibi sustenta que seu 21º Imã, al-Tayyib, entrou em ocultação física e é representado por um vigário. A partir do século XVI, esse ramo se dividiu nas facções da'udi e sulaymani12.

Zaidismo: a corrente historicamente mais próxima do sunismo

O zaidismo predomina historicamente no norte do Iêmen. Segundo estimativa da Minority Rights Group, entre 35% e 45% da população iemenita é zaidita13. Na doutrina, rejeita a infalibilidade do imã, diferença central em relação ao duodecimanismo, e sustenta que qualquer descendente qualificado de Ali pode ser imã, e não uma linha fixa e designada. Adota ainda a doutrina do khuruj (rebelião legítima contra governante injusto). Segundo a literatura consultada, isso faz dele a corrente xiita historicamente mais próxima do sunismo em método jurídico14.

Os houthis do Iêmen seguem a doutrina zaidita, mas é contestada a ideia de que o movimento seja um simples representante do Irã por influência religiosa direta. Historicamente, o zaidismo rejeita a doutrina imamita duodecimana do Irã, e, segundo a mesma literatura, a relação entre o Irã e os houthis é mais política e estratégica do que doutrinária14.

Não confundir com: sunismo, que aceita a sucessão de Maomé pela escolha da comunidade, e não pela linhagem de Ali; sufismo, dimensão devocional presente tanto no xiismo quanto no sunismo, e não um ramo à parte; wilayat al-faqih, doutrina de uma corrente dentro do xiismo duodecimano, e não do xiismo inteiro.

Leia mais: Os ramos do Islã: de onde vêm as divisões e o que separa cada um · Wilayat al-faqih: a tutela do jurista

Fontes

Fontes

  1. TDV İslâm Ansiklopedisi, "ŞÎA". https://islamansiklopedisi.org.tr/sia (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente.

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  2. Referências convergentes a Sahih al-Bukhari sobre o período pós-morte de Maomé, via sunnah.com. https://sunnah.com (abre em nova aba) · 🔍 acesso indireto via busca; número exato do hadith não confirmado nesta apuração — paráfrase, sem citação literal.

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  3. Encyclopaedia Iranica, "ḠADĪR ḴOMM", vol. X, fasc. 3, pp. 246-249, publicado em 15 de dezembro de 2000, atualizado em 29 de maio de 2013. https://iranicaonline.org/articles/gadir-kom (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente.

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  4. Litvak, Meir, "KARBALA", Encyclopaedia Iranica, vol. XV, fasc. 5, pp. 550-556, publicado em 15 de dezembro de 2010, atualizado em 1º de novembro de 2012. https://iranicaonline.org/articles/karbala (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente. Qualificação profissional do autor não verificada nesta apuração; citado apenas como verbete assinado.

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  5. Pew Research Center, "Mapping the Global Muslim Population" (7 de outubro de 2009) e "The Future of the Global Muslim Population — Sunni and Shia" (27 de janeiro de 2011, dados de 2010). https://www.pewresearch.org/religion/2009/10/07/mapping-the-global-muslim-population/ (abre em nova aba) · https://www.pewresearch.org/religion/2011/01/27/future-of-the-global-muslim-population-sunni-and-shia/ (abre em nova aba) · 🟢.

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  6. Encyclopaedia Iranica, "ESCHATOLOGY iii. Imami Shiʿism", M. A. Amir-Moezzi, vol. VIII/6, pp. 575-581. https://www.iranicaonline.org/articles/eschatology-iii/ (abre em nova aba) · 🔍 reaproveitada de outro dossiê do site; não relida diretamente nesta apuração — paráfrase, sem citação literal.

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  7. Brunner, Rainer, "SHIʿITE DOCTRINE ii. Hierarchy in the Imamiyya", Encyclopaedia Iranica, publicado em 1º de outubro de 2010, atualizado em 14 de janeiro de 2013. https://iranicaonline.org/articles/shiite-doctrine-ii (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente.

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  8. War on the Rocks, "Post-Sistani Iraq, Iran, and the Future of Shia Islam" (2016). https://warontherocks.com/2016/09/post-sistani-iraq-iran-and-the-future-of-shia-islam/ (abre em nova aba) · 🟡 publicação especializada em segurança e política externa, não catalogada em docs/FONTES.md; sustenta apenas a afirmação geral de que a wilayat al-faqih é a base constitucional da República Islâmica desde 1979.

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  9. Algar, Hamid, "KHOMEINI i. Life", Encyclopaedia Iranica, publicado em 14 de dezembro de 2020. https://iranicaonline.org/articles/khomeini-i (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente; verbete assinado.

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  10. Encyclopaedia Iranica, "ISMAʿILISM", vol. XIV, fasc. 2, pp. 172-195, publicado em 15 de dezembro de 2007, atualizado em 5 de abril de 2012. https://iranicaonline.org/articles/ismailism (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente. Entrada do tipo headword, sem autor único assinado.

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  11. Aga Khan Development Network, "Our Chair". https://www.akdn.org/our-chair (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente; fonte institucional.

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  12. Encyclopaedia Iranica, "ISMAʿILISM xvi. Modern Ismaʿili Communities" / "xvii. The Imamate in Ismaʿilism". https://www.iranicaonline.org/articles/ismailism-xvi-modern-ismaili-communities/ (abre em nova aba) · 🔍 não aberto diretamente nesta apuração — paráfrase, sem citação literal.

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  13. Minority Rights Group, "Zaydi Shi'a in Yemen". https://minorityrights.org/communities/zaydi-shia/ (abre em nova aba) · 🟢 ONG de referência em direitos de minorias.

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  14. Fontes convergentes sobre doutrina zaidita e a relação com o Irã (Wilson Center, Sana'a Center, Oasis Center), nenhuma lida por inteiro nesta apuração. 🔍 ⚠️ fonte não catalogada em docs/FONTES.md — paráfrase, sem citação literal.

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  15. Constituição da República Islâmica do Irã (1979, com as emendas de 1989), art. 5. Constitute Project — https://www.constituteproject.org/constitution/Iran_1989 (abre em nova aba) · 🟢 fonte primária — sustenta que, durante a ocultação do Imã (Wali al-'Asr), a wilayah e a liderança da comunidade cabem ao jurista (faqih) justo e piedoso, ciente das circunstâncias de seu tempo, corajoso e com capacidade administrativa, na forma do art. 107. Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.

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