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Verbete

Wahhabismo

wahhabismo · wahhābiyya (وهابية)

Wahhabismo é o movimento de reforma sunita fundado por Muhammad ibn Abd al-Wahhab no Nejd, na Arábia do século XVIII, contra práticas que classificava como shirk (associação de outros poderes a Deus) — a veneração de túmulos e a intercessão de santos1.

O pacto de Dir'iya e a doutrina de Estado

Muhammad ibn Abd al-Wahhab nasceu em 1703 (1115 AH) em Uyayna, no Nejd, filho de um juiz da escola hanbali1. Depois da morte do pai, em 1740, iniciou um movimento contra o que classificava como idolatria — o historiador David Commins registra que era prática, não só tese: ainda em al-'Uyayna, nos anos 1740, mandou destruir a cúpula sobre o túmulo de Zayd ibn al-Khattab, companheiro de Maomé2. A oposição o fez mudar-se; em 1745 (1158 AH), foi para Dir'iya, sob domínio da família Saud, onde seu contemporâneo, o emir Muhammad ibn Saud, teria selado um acordo com ele: apoio político à difusão da doutrina em troca do respaldo religioso do xeque ao domínio saudita1. Ibn Abd al-Wahhab morreu em 17921. É esse pacto de meados do século XVIII que explica por que o wahhabismo se tornou doutrina de Estado: religião oficial do Reino da Arábia Saudita desde sua fundação, em 19321.

Um rótulo que os próprios adeptos rejeitam

"Wahhabita" é majoritariamente exônimo. Segundo Commins, os próprios devotos do movimento sustentam que "wahhabismo" é uma denominação errônea para seus esforços de reviver a crença e a prática islâmicas corretas, e preferem os termos salafi — quem segue o caminho dos primeiros muçulmanos — ou muwahhid — quem professa a unicidade de Deus; o rótulo foi cunhado por opositores muçulmanos do início do movimento para depreciá-lo2. A enciclopédia turca de referência confirma isso de forma independente: o movimento tomou o nome por referência a Ibn Abd al-Wahhab, mas essa designação encontrou uso amplo fora do movimento, enquanto seus próprios membros preferem ser chamados de muwahhidun, ahl al-hadith ("gente do hadith") ou salafistas1. Em muitos países muçulmanos, segundo a mesma fonte, o nome "wahhabita" passou a ser usado pela imprensa internacional e por círculos políticos para grupos sem relação direta com o movimento — inclusive movimentos independentistas e religioso-políticos antirregime na Chechênia e na Ásia Central1.

Wahhabismo e salafismo não são sinônimos

O salafismo é a categoria mais ampla: um método de leitura das fontes reivindicado por correntes muito diferentes entre si, incluindo reformistas do século XIX que nada tinham de wahhabitas. O wahhabismo é um movimento histórico específico, com fundador, data e pacto político nomeados — e é o ramo do salafismo mais fechado à convivência com o sufismo, hostil desde a origem a práticas como a veneração de túmulos3.

A relação com a Irmandade Muçulmana: acolhida, depois ruptura

Segundo Wiktorowicz, membros da Irmandade Muçulmana foram acolhidos pelo regime saudita e incorporados ao projeto de construção do Estado; nos anos 1970, muitos assumiram postos de ensino e se tornaram influentes nos campi universitários sauditas, trazendo agenda mais politicamente orientada a um contexto religioso até então predominantemente purista — um islamista saudita, citado pelo autor, chegou a afirmar que "a maioria dos livros que se podia encontrar nas livrarias, nos anos 1970, era escrita por membros da Irmandade"4. Essa acolhida não durou: em 7 de março de 2014, a Arábia Saudita declarou formalmente a Irmandade Muçulmana organização terrorista5.

Difusão internacional

David D. Aufhauser, ex-conselheiro-geral do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, testemunhou ao Senado americano, em junho de 2004, que as estimativas do gasto saudita histórico com a difusão do wahhabismo e do salafismo no exterior ultrapassavam US$ 75 bilhões6. O próprio regime saudita, por volta do ano 2000, publicava em site oficial do então rei Fahd os números de infraestrutura religiosa construída fora do mundo de maioria muçulmana: 1.500 mesquitas, 210 centros islâmicos, 202 faculdades e 2.000 escolas — números autodeclarados pelo Estado, não auditados por terceiros6.

A "reforma" declarada por Riad

Em 24 de outubro de 2017, na conferência Future Investment Initiative, em Riade, o então príncipe herdeiro Mohammed bin Salman declarou que a mudança seria "voltar ao que éramos: um Islã moderado, aberto a todas as religiões, ao mundo, a todas as tradições e pessoas" — e situou a ruptura em 1979: "A Arábia Saudita não era assim antes de 79"7. É a fala de um governante sobre a própria política, não uma constatação independente de que a política de fato mudou.

Não confundir com: salafismo, a categoria mais ampla da qual o wahhabismo é um movimento histórico específico, não sinônimo; e Irmandade Muçulmana, movimento sunita de diagnóstico político-organizacional, não doutrinário-religioso, com trajetória de aliança e ruptura própria em relação ao Estado saudita.

Leia mais: Salafismo, wahhabismo, deobandismo e Irmandade Muçulmana: as quatro correntes que a imprensa confunde

Fontes

Fontes

  1. TDV İslâm Ansiklopedisi, "VEHHÂBÎLİK", Mehmet Ali Büyükkara, vol. 42 (2012), pp. 611-615. https://islamansiklopedisi.org.tr/vehhabilik (abre em nova aba) · 🟢 lido na íntegra.

  2. Commins, David. The Wahhabi Mission and Saudi Arabia. Library of Modern Middle East Studies 50. Londres: I.B. Tauris, 2006. Texto integral via Internet Archive: https://archive.org/stream/WahhabiMissionSaudiArabiaByProfessorDavidCommins/Wahhabi%20Mission%20Saudi%20Arabia%20by%20Professor%20David%20Commins%20_djvu.txt (abre em nova aba) · 🟢 lido na íntegra (prefácio, p. vii, e nota 1). Passagens citadas entre aspas traduzidas do inglês por esta redação.

  3. TDV İslâm Ansiklopedisi, "SELEFİYYE", M. Sait Özervarlı, vol. 36 (2009), pp. 399-402. https://islamansiklopedisi.org.tr/selefiyye (abre em nova aba) · 🟢 lido na íntegra. Passagem citada entre aspas traduzida do turco por esta redação.

  4. Wiktorowicz, Quintan. "Anatomy of the Salafi Movement." Studies in Conflict & Terrorism, vol. 29, n.º 3, 2006, pp. 207-239. DOI: 10.1080/10576100500497004 · 🟢 lido na íntegra. Autor identificado no artigo apenas como "Washington, D.C., USA", sem filiação institucional — citado sem cargo. Passagem entre aspas é tradução nossa do inglês.

  5. BBC News, "Saudi Arabia declares Muslim Brotherhood 'terrorist group'", 7 de março de 2014. https://www.bbc.com/news/world-middle-east-26487092 (abre em nova aba) · 🟢 lido na íntegra.

  6. Ottaway, David B. "Saudi export of strict Islam raises suspicions" (republicado via NBC News, do Washington Post). 19 de agosto de 2004. https://www.nbcnews.com/id/wbna5751289 (abre em nova aba) · 🔍 imprensa padrão profissional, não relida em navegador na pesquisa do artigo-fonte. Cita David D. Aufhauser, ex-conselheiro-geral do Departamento do Tesouro dos EUA, em depoimento ao Senado (junho de 2004): estimativa de mais de US$ 75 bilhões — atribuição de terceiro, não cifra oficial saudita, parafraseada sem aspas porque a fonte não foi relida. Os números de infraestrutura (1.500 mesquitas, 210 centros islâmicos, 202 faculdades, 2.000 escolas) vêm da mesma reportagem, atribuídos por ela ao site oficial do rei Fahd, sem auditoria externa mencionada.

  7. CNN, "Saudi crown prince promises 'a more moderate Islam'", 24 de outubro de 2017. https://edition.cnn.com/2017/10/24/middleeast/saudi-arabia-prince-more-moderate-islam/index.html (abre em nova aba) · 🟢 lido na íntegra. Declaração de Mohammed bin Salman na conferência Future Investment Initiative, em Riade; passagens citadas entre aspas traduzidas do inglês por esta redação.

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