Verbete
Jizya
Jizya · jizya (جزية)
Jizya é o tributo per capita que a tradição jurídica islâmica clássica impunha aos não muçulmanos "do Livro" sob domínio islâmico, fundado no Alcorão 9:29, pago em troca de proteção estatal e como contrapartida ao estatuto de dhimmi1.
O que o texto diz. O versículo 9:29 ordena combater "os que receberam o Livro" — judeus e cristãos — "até que, submissos, paguem a Jizya", na tradução de Samir El Hayek; Helmi Nasr verte a mesma palavra árabe, ṣāghirūn, como "humilhados" em vez de "submissos" — divergência que muda o peso do versículo, entre descrever sujeição política e descrever humilhação como finalidade em si12. Em nenhuma das duas traduções o versículo termina em morte ou conversão: prevê uma terceira via, o pagamento da jizya como submissão política — simplificar 9:29 para "conversão ou morte" erra o próprio texto, não apenas a leitura dele12.
Como a tradição jurídica majoritária leu. A maioria dos comentaristas associa o versículo à Expedição de Tabuk, mobilização de reforço da fronteira norte da Arábia contra o Império Bizantino, no ano 9 da Hégira — contexto de conflito específico, não ordem solta3. As escolas hanafi e maliki, ao restringirem de formas diferentes entre si o alcance do hadith que sustenta a leitura mais ampla de 9:5 ("combatei os idólatras"), excluíram dessa ordem judeus, cristãos e não árabes, que passam a cair sob o regime de 9:29 — jizya e estatuto dhimmi — em vez de sob a ordem de combate4.
O paralelo com o zakat. A doutrina clássica isentava os dhimmis do serviço militar e do zakat, a contribuição obrigatória que recai sobre os muçulmanos como um dos pilares da fé5. A alíquota não é única: a taxa-padrão de 1/40 (2,5%) incide sobre ouro, prata, dinheiro e mercadorias de comércio acima do nisab — o limiar mínimo de patrimônio, fixado em 200 dirhems de prata ou 20 miskal de ouro —, enquanto produtos agrícolas, animais e minas seguem regimes próprios, e as interpretações divergem entre as escolas jurídicas9. A leitura difundida de que a jizya era paga como compensação direta pela isenção do serviço militar tem contestação acadêmica: Mark Wagner, professor associado de Árabe na Louisiana State University e, à época, fellow do Katz Center da Universidade da Pensilvânia, argumenta que essa narrativa de "troca justa" é, em parte, leitura apologética moderna, e que está longe de certo que dhimmis pudessem ter servido nos exércitos islâmicos antigos ainda que quisessem5. A jizya não substitui o zakat: são dois tributos religiosamente definidos, cobrados de populações diferentes, com beneficiários e finalidades diferentes — e o paralelo costuma desaparecer dos dois lados do debate público, que ora trata a jizya como imposição unilateral sem mencionar que o muçulmano também pagava um tributo obrigatório, ora trata o zakat como caridade voluntária sem mencionar seu caráter compulsório5. A doutrina clássica também previa isenções na própria cobrança da jizya — mulheres, crianças, homens idosos, pessoas com deficiência ou enfermidade mental, monges recolhidos ao mosteiro sem renda própria e pobres sem condição de pagar —, mas não conseguimos confirmar essa lista por leitura direta de fonte de primeira linha; fica registrada como convergência de fontes de referência, verificação pendente 🔍6.
Como o jihadismo contemporâneo leu. O Estado Islâmico cobrou jizya de cristãos em Raqqa, na Síria, em fevereiro de 2014, tratando o versículo como categoria aberta e atual — o mesmo padrão documentado para sua leitura de 9:5: as cláusulas que historicamente limitavam o alcance do texto a grupos e contextos específicos são despidas de seu papel limitador7. O Departamento de Estado dos Estados Unidos condenou o episódio como violação de direitos humanos universais7.
Como correntes reformistas leram. Reformistas como Mahmoud Mohamed Taha e Abdullahi Ahmed An-Na'im não contestam que o versículo trate de tributo e submissão política; contestam a doutrina de ab-rogação ampla que generaliza os versículos de guerra e tributo a qualquer não muçulmano, em qualquer época, desconectados do contexto histórico de conflito em que foram revelados8.
Não confundir com: dhimmi, o estatuto jurídico do qual a jizya é uma obrigação específica, não o estatuto inteiro; o zakat, contribuição obrigatória equivalente para muçulmanos, com beneficiários e finalidade diferentes.
Leia mais: Os "versículos da espada" do Alcorão: o que o texto diz, e quem o lê como mandato de guerra
Fontes
Fontes
Alcorão, tradução de Samir El Hayek (1974). https://www.alcorao.net.br/ (abre em nova aba) · PDF completo: https://islamicbulletin.org/portuguese/ebooks/quran/alcorao_sagrado_samir.pdf (abre em nova aba) · 🟢 texto-base da casa: a tradução mais difundida em português, de formação e recepção majoritariamente sunitas, sem patrocinador estatal ou institucional identificado (ver
↩docs/FONTES.md§7)Alcorão, tradução do Dr. Helmi Nasr (concl. 2005, edição de 2015 consultada), encomendada pela Liga Islâmica Mundial. https://quranenc.com/pt/browse/portuguese_nasr/9 (abre em nova aba) · https://www.islaoealcorao.com/ (abre em nova aba) · 🟡 origem institucional saudita, declarada por transparência
↩Ibn Kathir (m. 1373), Tafsir Ibn Kathir, comentário a 9:5 e 9:29, tradução inglesa. https://quran.com/en/9:5/tafsirs/en-tafisr-ibn-kathir (abre em nova aba) · https://quran.com/en/9:29/tafsirs/en-tafisr-ibn-kathir (abre em nova aba) · 🟢
↩Fakhr al-Din al-Razi (1149-1210), Mafatih al-Ghayb — citado via SeekersGuidance, "Jihad, Abrogation in the Quran & the 'Verse of the Sword'". https://seekersguidance.org/answers/general-counsel/jihad-abrogation-in-the-quran-the-verse-of-the-sword/ (abre em nova aba) · 🟡 site de ensino tradicionalista sunita. Corroboração independente: David Cook (Rice University), "Islam in Iran xi. Jihad in Islam", Encyclopaedia Iranica, vol. XIV, fasc. 2, pp. 154-156, 2007. https://www.iranicaonline.org/articles/islam-in-iran-xi-jihad-in-islam/ (abre em nova aba) · 🟢 — confirma e precisa a distinção hanafi/maliki: as duas escolas restringem 9:5 aos idólatras da Arábia e, fora dela, estendem a opção de jizya até a politeístas não árabes, não só a judeus e cristãos, ao contrário da leitura shafi'i. 🔍 verificação pendente — conteúdo de Cook confirmado por snippet de busca nesta pesquisa, não por leitura direta da página (iranicaonline.org bloqueou o acesso); não citar como trecho verbatim até conferência direta.
↩Azim Nanji, "Zakāt", Encyclopedia of Religion, 2ª ed., Gale/Macmillan Reference USA, 2005, via Encyclopedia.com. https://www.encyclopedia.com/philosophy-and-religion/islam/islam/zakat (abre em nova aba) · 🟢 — sustenta o zakat como pilar obrigatório de base alcorânica. John Bowker, verbete correlato em Oxford Dictionary of World Religions, Oxford University Press, texto atualizado em 18 de maio de 2018, mesma URL · 🟢 — explicita que a taxa varia por categoria de bem e que as interpretações divergem entre escolas de direito. Nenhuma das duas entradas traz percentual: a atribuição anterior de "2,5% como taxa-padrão" a esta fonte foi corrigida em 8 de setembro de 2026, ao reabrir a página, e a alíquota passou para 9. Mark Wagner, "What Do You Know? Dhimmi, Jewish Legal Status under Muslim Rule", Katz Center for Advanced Judaic Studies, University of Pennsylvania, 30 de novembro de 2018. https://katz.sas.upenn.edu/resources/blog/what-do-you-know-dhimmi-jewish-legal-status-under-muslim-rule (abre em nova aba) · 🟢. Wagner é professor associado de Árabe na Louisiana State University e foi Ruth Meltzer Fellow do Katz Center em 2018-2019, ano da publicação do texto (https://katz.sas.upenn.edu/people/fellow/mark-wagner (abre em nova aba), acesso em 8 de setembro de 2026); a qualificação de "historiador", usada aqui até 8 de setembro de 2026, era nossa e estava errada — sustenta a isenção do dhimmi quanto ao serviço militar e ao zakat, e a ressalva de que a leitura da jizya como compensação "justa" pela isenção militar é, em parte, leitura apologética moderna.
↩Britannica, "Jizyah" — s.d. 🟢 obra de referência padrão; nesta pesquisa, acesso bloqueado (HTTP 403), conteúdo reconstruído por snippet de busca, não por leitura direta. Vera Basch Moreen, "Jezya", Encyclopaedia Iranica, 15 de dezembro de 2008, citando C. Cahen, "Djizya", Encyclopaedia of Islam, 2ª ed., vol. II, Brill, 1965, pp. 559-562 · 🟢 — mesmo bloqueio de acesso nesta pesquisa. As duas fontes convergem em listar mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência ou enfermidade mental e monges recolhidos ao mosteiro sem renda própria entre os isentos da jizya, junto aos pobres sem condição de pagar. 🔍 verificação pendente — conteúdo reconstruído por snippet de busca nesta pesquisa, não confirmado por leitura direta da página; não usar como citação verbatim até conferência direta.
↩Aymenn Jawad Al-Tamimi, "The Islamic State of Iraq and ash-Sham's dhimmi pact for the Christians of Raqqa province", 26 de fevereiro de 2014, publicado em Syria Comment (blog de Joshua Landis, Universidade de Oklahoma). https://joshualandis.com/blog/islamic-state-iraq-ash-shams-dhimmi-pact-christians-raqqa-province/ (abre em nova aba) · 🟡 pesquisador independente especializado em documentos primários jihadistas — tradução do documento primário do decreto do Estado Islâmico. Corroboração jornalística independente: NBC News, "State Department Condemns Ultimatum Given to Syrian Christians", 27 de fevereiro de 2014 (🟢) e Times of Israel, "Syrian Christians sign treaty of submission to Islamists", 27 de fevereiro de 2014 (🟡) — sustentam a cobrança da jizya de cristãos em Raqqa e a condenação do Departamento de Estado dos EUA, pela porta-voz Jen Psaki.
↩Mahmoud Mohamed Taha e Abdullahi Ahmed An-Na'im — teoria evolutiva, citada via artigo de Bill Kelly, "Sudanese Pioneers of Islamic Reform", Medium. https://wkelly1-19385.medium.com/sudanese-pioneers-of-islamic-reform-taha-and-an-naim-999fe11891b3 (abre em nova aba) · 🟡 blog pessoal, não revisado por pares
↩Mehmet Erkal, "ZEKÂT", TDV İslâm Ansiklopedisi, vol. 44, Istambul, 2013, pp. 197-207. https://islamansiklopedisi.org.tr/zekat (abre em nova aba) · 🟢 · acesso em 8 de setembro de 2026 — dá a alíquota de 1/40 (kırkta bir, "% 2,5") para ouro, prata, dinheiro e mercadorias de comércio, o nisab de 200 dirhems de prata (595 g) ou 20 miskal de ouro (85 g), a exigência de um ano lunar completo (havelânü'l-havl) e os regimes distintos de produtos agrícolas, animais e minas.
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