Elucidário.Islã · Sharia · laicidade

Verbete

Dhimmi

Dhimmi · dhimmī (ذمي), "protegido"

Dhimmi é o estatuto jurídico clássico que regulava, sob domínio islâmico, a vida de não muçulmanos "do Livro" — judeus e cristãos, depois estendido a outros grupos —, combinando proteção estatal da vida, do culto e da propriedade com um conjunto de restrições civis e o pagamento da jizya (tributo).

O que o texto e a tradição estabeleceram. O fundamento textual mais citado é o Alcorão 9:29, que ordena combater "os que receberam o Livro" — judeus e cristãos — "até que, submissos, paguem a Jizya", na tradução de Samir El Hayek; Helmi Nasr verte a mesma palavra árabe (ṣāghirūn) como "humilhados" em vez de "submissos" — divergência de peso, porque a primeira descreve um estado de sujeição política e a segunda carrega rebaixamento pessoal como finalidade em si12. A maioria dos comentaristas associa o versículo à Expedição de Tabuk, mobilização de reforço da fronteira norte da Arábia contra o Império Bizantino, no ano 9 da Hégira — contexto histórico específico, não uma norma solta3. As escolas jurídicas hanafi e maliki, ao restringirem de formas diferentes entre si o alcance do hadith que sustenta a leitura mais ampla de combate contra "os idólatras" (9:5), excluíram dessa ordem judeus, cristãos e não árabes — que passam, nessa leitura, a cair sob o regime de 9:29: jizya e estatuto dhimmi, não guerra4.

As duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo. A doutrina garantia proteção real da vida, do culto e da propriedade; ao mesmo tempo, era desigualdade jurídica estrutural, com restrições civis e tributo específico que o muçulmano livre não pagava.

O que os Estados fazem hoje. Nenhuma das fontes que reunimos registra Estado que hoje mantenha o estatuto dhimmi como sistema legal formal. A jizya foi formalmente abolida pelo Hatt-i Hümayun, édito de reforma otomano de 18 de fevereiro de 1856, que igualou juridicamente súditos de religiões diferentes perante a lei5. A distinção fiscal por religião, porém, não desapareceu nesse mesmo movimento: foi substituída pelo bedel-i askeri, tributo cobrado só de não muçulmanos que optassem por não servir nas Forças Armadas, extinto apenas em 1909, quando o serviço militar obrigatório passou a valer para todos os súditos homens, independentemente de religião5. Onde minorias religiosas hoje enfrentam discriminação legal em determinados países, essa discriminação tem lei, data e origem próprias — descrevê-la como "aplicação do estatuto dhimmi" confunde uma instituição jurídica específica de outro período com legislação contemporânea distinta, e não estendemos o rótulo a casos que não pudemos verificar. A exceção documentada é de um grupo armado, não de um Estado reconhecido: o Estado Islâmico reimpôs o estatuto a cristãos na Síria, em fevereiro de 2014, cobrando jizya como condição de permanência — ato de um grupo jihadista específico, não norma vigente em nenhum país6. O Departamento de Estado dos Estados Unidos condenou o episódio como violação de direitos humanos universais6.

O teste de consistência aplicado à comparação com a cristandade medieval. Este site testa toda comparação entre tradições religiosas trocando uma pela outra e checando se o argumento se sustenta. Aplicado ao caso específico — e melhor documentado — das comunidades judaicas, o historiador Mark R. Cohen (Princeton), autor da obra de referência do campo sobre judeus sob domínio islâmico, sustenta uma resposta qualificada: sob o estatuto dhimmi, o judeu ocupava um "nicho reconhecido, fixo e resguardado" na ordem social, posição que Cohen contrasta com a do judeu como infiel na Europa cristã medieval — mais marginal, mais sujeita a expulsão em massa a partir dos séculos XIII a XV e a violência de multidão7. Bernard Lewis chega por via largamente independente a um veredito comparável, descrevendo o dhimmi como portador de uma espécie de cidadania de segunda classe, e a hostilidade islâmica ao judeu como de base religiosa e social, não racial — ao contrário do antissemitismo europeu moderno8. Nenhum dos dois descreve utopia: Cohen rejeita tanto o mito do "século de ouro" quanto a leitura que só vê perseguição, e documenta violência real sob domínio islâmico, entre ela o episódio mais citado, o dos almóadas7. A comparação, tal como essas duas fontes a sustentam, refere-se especificamente a comunidades judaicas — não há corpo historiográfico equivalente comparando o tratamento de cristãos dhimmis a outros contextos cristãos. Existe leitura oposta, difundida sob o termo dhimmitude, cunhado por Bat Ye'or (pseudônimo de Gisèle Littman) para descrever o estatuto como sistema de humilhação estrutural9; Bat Ye'or não é historiadora com formação e afiliação acadêmica em história islâmica, e o próprio Cohen chama o termo de neologismo "polêmico" e "distorcivo"7 — entre as fontes que reunimos não há historiador credenciado, publicando em imprensa universitária, que sustente a leitura oposta com peso equivalente ao de Cohen e Lewis.

Não confundir com: jizya, o tributo específico cobrado dos dhimmis — o estatuto é a condição jurídica; a jizya, uma de suas obrigações; Sharia, o ideal normativo do qual o estatuto dhimmi é uma elaboração jurídica humana entre outras, tema desenvolvido na distinção entre Sharia e fiqh.

Leia mais: Os "versículos da espada" do Alcorão: o que o texto diz, e quem o lê como mandato de guerra

Fontes

Fontes

  1. Alcorão, tradução de Samir El Hayek (1974). https://www.alcorao.net.br/ (abre em nova aba) · PDF completo: https://islamicbulletin.org/portuguese/ebooks/quran/alcorao_sagrado_samir.pdf (abre em nova aba) · 🟢 texto-base da casa: a tradução mais difundida em português, de formação e recepção majoritariamente sunitas, sem patrocinador estatal ou institucional identificado (ver docs/FONTES.md §7)

  2. Alcorão, tradução do Dr. Helmi Nasr (concl. 2005, edição de 2015 consultada), encomendada pela Liga Islâmica Mundial. https://quranenc.com/pt/browse/portuguese_nasr/9 (abre em nova aba) · https://www.islaoealcorao.com/ (abre em nova aba) · 🟡 origem institucional saudita, declarada por transparência

  3. Ibn Kathir (m. 1373), Tafsir Ibn Kathir, comentário a 9:5 e 9:29, tradução inglesa. https://quran.com/en/9:5/tafsirs/en-tafisr-ibn-kathir (abre em nova aba) · https://quran.com/en/9:29/tafsirs/en-tafisr-ibn-kathir (abre em nova aba) · 🟢

  4. Fakhr al-Din al-Razi (1149-1210), Mafatih al-Ghayb — citado via SeekersGuidance, "Jihad, Abrogation in the Quran & the 'Verse of the Sword'". https://seekersguidance.org/answers/general-counsel/jihad-abrogation-in-the-quran-the-verse-of-the-sword/ (abre em nova aba) · 🟡 site de ensino tradicionalista sunita. Corroboração independente: David Cook (Rice University), "Islam in Iran xi. Jihad in Islam", Encyclopaedia Iranica, vol. XIV, fasc. 2, pp. 154-156, 2007. https://www.iranicaonline.org/articles/islam-in-iran-xi-jihad-in-islam/ (abre em nova aba) · 🟢 — confirma e precisa a distinção hanafi/maliki: as duas escolas restringem 9:5 aos idólatras da Arábia e, fora dela, estendem a opção de jizya até a politeístas não árabes, não só a judeus e cristãos, ao contrário da leitura shafi'i. 🔍 verificação pendente — conteúdo de Cook confirmado por snippet de busca nesta pesquisa, não por leitura direta da página (iranicaonline.org bloqueou o acesso); não citar como trecho verbatim até conferência direta.

  5. Elizabeth Thompson, "Jizya" e "Bedel-i Askeri", Encyclopedia of the Modern Middle East and North Africa, 2ª ed., Gale/Macmillan Reference, 2005, via Encyclopedia.com. https://www.encyclopedia.com/history/asia-and-africa/middle-eastern-history/jizya (abre em nova aba) · https://www.encyclopedia.com/humanities/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/bedel-i-askeri (abre em nova aba) · 🟢 — sustenta a abolição da jizya em 1855-1856 pelo Hatt-i Hümayun (18 de fevereiro de 1856) e sua substituição pelo bedel-i askeri, tributo de isenção militar cobrado só de não muçulmanos, abolido em 1909. Corroboração de escopo temporal, não de conteúdo verbatim: Selim Deringil, "'There Is No Compulsion in Religion': On Conversion and Apostasy in the Late Ottoman Empire, 1839-1856", Comparative Studies in Society and History 42(3), 2000, pp. 547-575 — resumo confirma o recorte 1839-1856; conteúdo específico não verificado nesta pesquisa.

  6. Aymenn Jawad Al-Tamimi, "The Islamic State of Iraq and ash-Sham's dhimmi pact for the Christians of Raqqa province", 26 de fevereiro de 2014, publicado em Syria Comment (blog de Joshua Landis, Universidade de Oklahoma). https://joshualandis.com/blog/islamic-state-iraq-ash-shams-dhimmi-pact-christians-raqqa-province/ (abre em nova aba) · 🟡 pesquisador independente especializado em documentos primários jihadistas — tradução do documento primário do decreto do Estado Islâmico. Corroboração jornalística independente: NBC News, "State Department Condemns Ultimatum Given to Syrian Christians", 27 de fevereiro de 2014 (🟢) e Times of Israel, "Syrian Christians sign treaty of submission to Islamists", 27 de fevereiro de 2014 (🟡) — sustentam os termos do decreto e a condenação do Departamento de Estado dos EUA, pela porta-voz Jen Psaki.

  7. Mark R. Cohen, Under Crescent and Cross: The Jews in the Middle Ages, Princeton University Press, 1994 (ed. revista 2008). 🟢 obra de referência do campo (Princeton, estudos judaicos próximo-orientais) — sustenta a comparação qualificada entre a posição do dhimmi judeu e a do judeu na cristandade medieval, a rejeição de Cohen tanto ao mito do "século de ouro" quanto à leitura que só vê perseguição, a documentação de violência real sob domínio islâmico (inclusive o episódio almóada), e a classificação do termo "dhimmitude" como neologismo "polêmico" e "distorcivo".

  8. Bernard Lewis, The Jews of Islam, Princeton University Press, 1984. 🟢 — chega por via largamente independente de Cohen a um veredito comparável sobre a posição do dhimmi judeu frente ao judeu na cristandade medieval.

  9. Bat Ye'or (pseudônimo de Gisèle Littman), The Dhimmi: Jews and Christians under Islam (1985) e Islam and Dhimmitude (2002) — origem do termo "dhimmitude". Não classificável no semáforo de docs/FONTES.md: a autora não é historiadora com formação e afiliação acadêmica em história islâmica, e não há, entre as fontes deste verbete, historiador credenciado que sustente essa leitura com peso equivalente ao de Cohen e Lewis; citada aqui para que o leitor identifique a origem e o estatuto do termo, não como fonte historiográfica de peso equiparável.

← Todo o glossário