Verbete
Talaq
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Talaq · ṭalāq (طلاق)
Talaq é o repúdio unilateral do casamento pelo marido no direito de família islâmico clássico, um ato que não depende de motivo, de processo judicial nem do consentimento da mulher.
Já a mulher, para se divorciar, precisa de um acordo em que devolve o dote (khul') ou de uma decisão judicial. Essa é a assimetria estrutural do estatuto pessoal islâmico, e é nesse campo, bem mais do que no penal, que a aplicação da Sharia mais afeta vidas hoje. O talaq triplo mostra como a mesma tradição jurídica produziu regras opostas. Na doutrina hanafi majoritária, três repúdios pronunciados numa só sessão contam como três, e o divórcio fica irrevogável na hora. Ibn Taymiyya (1263–1328), jurista da escola hanbali, sustentou que contam como um só, posição que foi minoritária por séculos dentro da própria escola dele. Em 1929, o Egito, pela Lei nº 25, determinou que o talaq pronunciado com número conta como um só e é revogável. Ou seja, o Estado adotou a opinião minoritária de um jurista hanbali e deixou de lado a doutrina majoritária da escola hanafi, oficial no país12.
Outros Estados foram mais longe. A Tunísia promulgou seu Código do Estatuto Pessoal por decreto de 13 de agosto de 1956, em vigor desde 1º de janeiro de 1957: o código proibiu a poligamia, fixou idade mínima de casamento e levou o divórcio ao tribunal civil, para os dois cônjuges e não só para o marido345. Com isso, o repúdio pelo marido fora do tribunal deixou de existir8. O Marrocos aprovou a Mudawwana no Parlamento em fevereiro de 2004: ela elevou a idade mínima de casamento para 18 anos, restringiu severamente a poligamia e ampliou o direito da mulher ao divórcio. Também pôs o talaq sob supervisão do juiz e determinou que vários repúdios ditos de uma vez valem por um só (artigos 78, 79 e 92)79. Tudo isso veio com justificativa oficial na escola maliki e no ijtihad (raciocínio jurídico independente), e não numa ruptura com a tradição jurídica67. Na Índia, o talaq triplo instantâneo foi criminalizado em 20192.
Nenhum desses quatro Estados descobriu "a" lei divina sobre o divórcio. Cada um escolheu, entre opiniões jurídicas que já existiam dentro da tradição, a que preferiu, e a tornou obrigatória para sua população, em datas, por caminhos institucionais e com alcance diferentes.
Não confundir com: khul', o divórcio a pedido da mulher, com devolução do dote, instrumento diferente do talaq (este é prerrogativa do marido); hudud e qisas, que tratam de crimes, e não de estatuto pessoal.
Leia mais: Sharia vs. fiqh: a distinção que os debates ignoram
Fontes
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Fontes
"Reforms in triple talaq in the personal laws of Muslim states", International Review of Law, Qatar University — https://www.qscience.com/docserver/fulltext/irl/2013/1/irl.2013.2.pdf (abre em nova aba) · periódico jurídico universitário · 🟢
↩Siddiqui, "Triple-Ṭalāq and the Political Context of Islamic Law in India", Journal of Islamic Law, Harvard — https://journalofislamiclaw.com/current/article/view/siddiqui (abre em nova aba) · periódico jurídico revisado · sustenta a criminalização do talaq triplo instantâneo na Índia em 2019 · 🟢
↩International Commission of Jurists, "Tunisia: Legal tradition" — https://www.icj.org/cijlcountryprofiles/tunisia/tunisia-introduction/tunisia-legal-tradition/ (abre em nova aba) · organização de juristas com metodologia pública · 🟢
↩Rayed Khedher, "Development of the Tunisian 1956 Code of Personal Status", Journal of International Women's Studies, 18(4), 2017 — https://vc.bridgew.edu/jiws/vol18/iss4/3/ (abre em nova aba) · periódico acadêmico revisado por pares · 🟢
↩Fundação Habib Bourguiba — Código do Estatuto Pessoal da Tunísia, de 13 de agosto de 1956 — https://www.bourguiba.com/language/en/portfolio_page/personal-status-code-august-13-1956/ (abre em nova aba) · hospeda o texto do código; usada para as datas, em par com 3 e 4 · 🟢
↩Carnegie Endowment for International Peace, "What Morocco's Family Law Reform Process Shows About Governance in the Kingdom", julho de 2025 — https://carnegieendowment.org/posts/2025/07/morocco-family-law-moudawana-reform-governance?lang=en (abre em nova aba) · think tank de pesquisa com financiamento e metodologia públicos · 🟢
↩Human Rights Education Associates, "The Moroccan Family Code (Moudawana)" — https://hrea.org/programs/gender-equality-and-womens-empowerment/moudawana/ (abre em nova aba) · organização de educação em direitos humanos; hospeda a tradução inglesa não oficial do código feita pela Global Rights (2005); usada em par com 6 · sustenta também os artigos 78 e 79 (repúdio "under judicial supervision", com autorização do tribunal) e o 92 ("Multiple expressions of repudiation pronounced verbally, with a symbolic gesture or in writing result in only one repudiation"), lidos diretamente em 23 de setembro de 2026 · 🟢
↩Nações Unidas, Conselho de Direitos Humanos, Grupo de Trabalho sobre discriminação contra as mulheres na lei e na prática, "Mission to Tunisia", A/HRC/23/50/Add.2, 30 de maio de 2013 — https://www.ohchr.org/sites/default/files/Documents/HRBodies/HRCouncil/RegularSession/Session23/A.HRC.23.50.Add.2_ENG.pdf (abre em nova aba) · documento oficial da ONU · 🟢 — o Código do Estatuto Pessoal "abolished polygamy and repudiation" e deu a homens e mulheres acesso igual ao "divorce before a court". Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.
↩Musawah, "Morocco — Overview of Muslim Family Laws & Practices", atualizado em 31 de maio de 2017 — https://www.musawah.org/wp-content/uploads/2019/03/Morocco-Overview-Table.pdf (abre em nova aba) · movimento de pesquisa e advocacia pela igualdade no direito de família muçulmano · 🟡 — a Mudawwana permite ao marido o divórcio unilateral, mas ele "must be effectuated under judicial supervision", com tentativa de reconciliação e depósito prévio dos direitos da mulher e dos filhos (artigos 79 a 93). Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.
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