Verbete
Umma
Umma · umma (أمة)
Umma é a comunidade muçulmana, fundada como categoria política — não apenas religiosa — pelo próprio Maomé ao chegar a Medina, em 62212.
A Constituição de Medina
Ao chegar a Medina, Maomé se tornou árbitro de uma cidade dividida entre os emigrados de Meca, os clãs árabes locais e diversas tribos judaicas estabelecidas na região havia gerações. A tradição preserva um documento associado a esse momento — a Sahifat al-Madina, conhecida popularmente como "Constituição de Medina" —, transmitido por Ibn Ishaq via Ibn Hisham, e também por Abu 'Ubayd al-Qasim ibn Sallam e por Ibn Kathir1.
Na tradução acadêmica de referência, de Alfred Guillaume (1955), o texto abre fundando a umma como categoria política: "Este é um documento de Maomé, o profeta, [que rege as relações] entre os crentes e muçulmanos de Quraysh e Yathrib, e aqueles que os seguiram e se uniram a eles e trabalharam com eles. Eles são uma só comunidade (umma), com exclusão de todos os demais homens"2.
O que a leitura popular do termo — "a comunidade dos fiéis" — costuma apagar é que o documento original não restringia a umma fundada em Medina aos muçulmanos. A cláusula referente aos judeus do clã Banu 'Awf estabelece: "Os judeus dos Banu 'Awf são uma só comunidade com os crentes (os judeus têm sua religião e os muçulmanos têm a sua), seus libertos e suas pessoas, exceto os que agirem de forma injusta e pecaminosa, pois eles prejudicam apenas a si mesmos e a suas famílias"2. A mesma fórmula se repete, no documento, para outras tribos judaicas e clãs associados a árabes de Medina2. O texto também estabelece obrigação de guerra compartilhada e despesas separadas entre judeus e muçulmanos, e determina que toda disputa que ameace causar conflito seja "referida a Deus e a Maomé" — a instância final de arbitragem política e jurídica da nova comunidade2.
Um documento aceito mesmo por pesquisadores céticos quanto ao resto da biografia de Maomé
A TDV İslâm Ansiklopedisi afirma não haver dúvida sobre a autenticidade do documento, e cita Wellhausen, Watt, Serjeant e Lecker — todos ocidentais — como acadêmicos que o estudaram amplamente, atribuindo essa aceitação à ausência de anacronismo terminológico e à consistência da tradição de transmissão1. R. B. Serjeant sustenta, de forma mais específica, que o documento não é um texto único emitido de uma vez, mas oito documentos distintos, emitidos em ocasiões diferentes ao longo dos primeiros sete anos do período medinense, reunidos depois pela tradição sob um único rótulo3. Michael Lecker chega, em monografia de 2004, a conclusão semelhante: o texto provavelmente combina mais de um acordo original, de datas diferentes — antigo em substância, mas mediado por um compilador bem posterior4.
Nota de uso
O conceito de umma é devocional na origem — a comunidade fundada por um documento de convivência concreta, numa cidade concreta, em 622. Isso não impede que o termo seja hoje mobilizado politicamente: o islamismo, a ideologia política que sustenta que o Estado e a lei devem ser organizados pelo Islã, invoca a unidade da umma como objetivo de projeto de poder, e o jihadismo se apresenta como seu vingador armado. Citar "umma" não diz nada, por si só, sobre a posição política de quem fala — o contexto é que diz.
Não confundir com: Islã, a fé e a prática ritual, categoria mais ampla que não implica, por si, pertencimento a um projeto político; califado, a instituição política que historicamente reivindicou liderar a umma, não sinônimo dela.
Leia mais: Vida de Maomé
Fontes
Fontes
TDV İslâm Ansiklopedisi, "MEDİNE VESİKASI", Mustafa Özkan, EK-2. cilt (2019), pp. 212-215. https://islamansiklopedisi.org.tr/medine-vesikasi (abre em nova aba) · 🟢 · cita Wellhausen, Watt, Serjeant e Lecker como estudiosos ocidentais que trabalharam o documento; afirma "não há dúvida sobre a autenticidade" do documento — formulação da própria tradição turca de referência, registrada como tal.
↩Alfred Guillaume (trad.), The Life of Muhammad: A Translation of Ibn Isḥāq's Sīrat Rasūl Allāh (Oxford University Press, 1955), pp. 231-233 — tradução acadêmica de referência da Constituição de Medina, lida por nós na íntegra em 8 de setembro de 2026 (verificação de primeira mão). Todas as citações de cláusulas do documento neste verbete são traduções nossas do texto inglês de Guillaume · 🟢.
↩R. B. Serjeant, "The Sunnah Jāmi'ah, Pacts with the Yathrib Jews, and the Taḥrīm of Yathrib: Analysis and Translation of the Documents Comprised in the So-Called 'Constitution of Medina'", Bulletin of the School of Oriental and African Studies (1978) — tese (oito documentos distintos reunidos, não um único texto) reconstruída via resumos secundários, artigo não lido no original · 🔍.
↩Michael Lecker, The "Constitution of Medina": Muhammad's First Legal Document (Darwin Press, 2004) — professor emérito, Hebrew University of Jerusalem; tese (o documento combina mais de um acordo original, mediado por compilador posterior) reconstruída via resumos e descrições editoriais, obra não lida no original · 🔍.
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