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Verbete

Califado

Close-up de um mosaico de azulejos islâmicos ornamentados, com caligrafia árabe e padrões geométricos. Photo by Hossein Monzavizadeh Califado · khilāfa (خلافة), "sucessão"

Califado é a instituição política que, na leitura do sunismo, liderou legitimamente a comunidade muçulmana depois da morte de Maomé, a começar pela escolha de Abu Bakr como sucessor pela comunidade reunida na Saqifa Bani Sa'ida, em 6321.

Os califas "corretamente guiados"

Uma cúpula clássica de estilo otomano com janelas intrincadas sob um céu azul limpo, simbolizando a arquitetura islâmica. Photo by Adem Erkoç

A leitura sunita reconhece Ali ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé, como o quarto califa "corretamente guiado" (rashidun); o xiismo, que tem Ali como figura central, o considera sucessor por designação divina, não por eleição12. É dessa disputa sobre a legitimidade da sucessão, e não de uma divergência teológica anterior, que vem a controvérsia entre as tradições sobre a própria instituição do califado.

Dinastias sucessivas até 1924

Depois dos quatro rashidun, o califado continuou por mais de um milênio sob dinastias sucessivas. O episódio de Karbala, em 680, por exemplo, já acontece sob um califa omíada, Yazid, e um governador omíada de Kufa3. Não encontramos, neste acervo, fonte própria e datada para a periodização exata das dinastias posteriores (omíada, abássida, otomana). Registramos só o que tem fonte: o califado, já sob a dinastia otomana em sua fase final, foi abolido pela Assembleia da Turquia em 1924, no colapso do Império Otomano. A literatura consultada cita esse fato como o gatilho imediato da fundação da Irmandade Muçulmana, em 19284.

Houve também um califado paralelo na história do xiismo. No período fatímida, os ismaelitas tiveram Estado próprio, o califado fatímida, e escola jurídica própria, fundada sob os primeiros califas-imãs5.

A restauração como bandeira jihadista e o califado do Estado Islâmico

Hoje a restauração do califado é bandeira de correntes jihadistas. Abu Bakr al-Baghdadi, líder do que viria a ser o Estado Islâmico, declarou um califado em 29 de junho de 2014 e apareceu em público na Grande Mesquita de Mossul, no Iraque, em 5 de julho do mesmo ano6. O grupo usou o takfir sistemático contra xiitas e sunitas dissidentes como instrumento de expansão territorial, e não só como retórica. Esse mecanismo doutrinário é tratado em detalhe no artigo Takfir. A autoridade religiosa majoritária, sunita e xiita, já tinha vedado institucionalmente esse tipo de prática antes da declaração de 2014. A Mensagem de Amã, de 9 de novembro de 2004, seguida pelos Três Pontos da conferência islâmica internacional de Amã, de julho de 2005, reconhece a validade de oito escolas jurídicas e proíbe expressamente o takfir entre seus seguidores7. Depois da declaração, mais de cem clérigos e acadêmicos muçulmanos assinaram em 2014 uma carta aberta a al-Baghdadi, rejeitando a legitimidade religiosa do califado proclamado pelo Estado Islâmico8. Em março de 2010, um encontro de estudiosos muçulmanos na Universidade Artuklu, em Mardin, na Turquia, divulgou a Declaração de Mardin: a fatwa medieval de Ibn Taymiyya sobre a cidade, muito usada por jihadistas, não pode servir para acusar outros muçulmanos de descrença nem para justificar matar muçulmanos ou não muçulmanos910. Esses episódios são tratados no artigo Takfir.

Não confundir com: o imamato xiita, linha de sucessão religiosa e teológica reivindicada a partir de Ali, distinta do califado como instituição política sunita; wilayat al-faqih, doutrina que funda a tutela do jurista no Irã contemporâneo e não é um califado; Estado Islâmico (EI), o grupo armado que declarou um califado em 2014 e que não é sinônimo da instituição histórica que dizia continuar.

Leia mais: Os ramos do Islã: de onde vêm as divisões e o que separa cada um · Os ideólogos do islamismo: quem escreveu as doutrinas, e o que as separa

Fontes

Fontes

  1. TDV İslâm Ansiklopedisi, "ŞÎA". https://islamansiklopedisi.org.tr/sia (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente.

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  2. TDV İslâm Ansiklopedisi, "EHL-i SÜNNET", Yusuf Şevki Yavuz, 1994. https://islamansiklopedisi.org.tr/ehl-i-sunnet (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente.

    ↩
  3. Litvak, Meir, "KARBALA", Encyclopaedia Iranica, vol. XV, fasc. 5, pp. 550-556, publicado em 15 de dezembro de 2010, atualizado em 1º de novembro de 2012. https://iranicaonline.org/articles/karbala (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente. Qualificação profissional do autor não verificada nesta apuração; citado apenas como verbete assinado.

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  4. Counter Extremism Project, "Hassan al-Banna". https://www.counterextremism.com/extremists/hassan-al-banna (abre em nova aba) · 🟡 ONG de pesquisa sobre extremismo, linha editorial declarada · 🔍 não lido em texto acadêmico primário; sustenta a data da abolição do califado (1924) como pano de fundo da fundação da Irmandade Muçulmana em 1928.

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  5. Encyclopaedia Iranica, "ISMAʿILISM", vol. XIV, fasc. 2, pp. 172-195, publicado em 15 de dezembro de 2007, atualizado em 5 de abril de 2012. https://iranicaonline.org/articles/ismailism (abre em nova aba) · 🟢 lido diretamente. Entrada do tipo headword, sem autor único assinado.

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  6. Counter Extremism Project, "Abu Bakr al-Baghdadi". https://www.counterextremism.com/extremists/abu-bakr-al-baghdadi (abre em nova aba) · 🟡 ONG de pesquisa sobre extremismo, linha editorial declarada.

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  7. Mensagem de Amã, declaração de 9 de novembro de 2004, e Três Pontos da conferência de Amã, julho de 2005. Texto oficial: https://rissc.jo/wp-content/uploads/2018/12/Amman_Message-EN.pdf (abre em nova aba) · resumo: https://ammanmessage.com/summary/ (abre em nova aba) · 🟢 documento primário.

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  8. Cobertura acadêmica e jornalística da carta aberta a al-Baghdadi de 2014 — o domínio original (lettertobaghdadi.com) está fora do ar e não deve ser usado como referência; texto integral não lido nesta apuração. Segundo MuslimMatters.org, "Muslim Scholars Letter to Al-Baghdadi of ISIS or ISIL — a Missed Opportunity", 1º de outubro de 2014, a carta original, publicada em 19 de setembro de 2014, teve 126 signatários — número que sustenta "mais de cem" no corpo do texto · 🟡.

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  9. Abdullah bin Bayyah (site oficial), "The New Mardin Declaration". https://binbayyah.net/english/the-new-mardin-declaration/ (abre em nova aba) · 🟢 texto da própria declaração, publicado pelo presidente do encontro — conferência de 27 e 28 de março de 2010 na Universidade Artuklu, em Mardin, organizada pelo Global Center for Renewal and Guidance; a fatwa de Ibn Taymiyya sobre Mardin "can under no circumstances be appropriated and used as evidence for leveling the charge of kufr (unbelief) against fellow Muslims". Usado para o que o documento declara. Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.

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  10. Hassan Abbas, "Controversial Gathering of Islamic Scholars Refutes Al-Qaeda's Ideological Cornerstone", Terrorism Monitor (Jamestown Foundation), v. 8, n. 14, 9 de abril de 2010. https://jamestown.org/brief/briefs-157/ (abre em nova aba) · 🟢 — relato independente do encontro de Mardin (27 e 28 de março de 2010) e da declaração final, que diz que quem usa a fatwa para matar muçulmanos ou não muçulmanos "has erred in his interpretation". Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.

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