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Islã no BrasilRevisado em 15 de setembro de 2026

Foz do Iguaçu: a comunidade xiita da Tríplice Fronteira

A comunidade árabe-muçulmana de Foz do Iguaçu é, na maior parte, xiita, uma exceção rara no Brasil. Ela se formou a partir de duas vilas do Vale do Bekaa e se organiza em duas instituições religiosas distintas: uma mesquita sunita e uma hussainiyah xiita. Aqui estão os números com fonte e o que é mito sobre a Tríplice Fronteira.

Vista deslumbrante das Cataratas do Iguaçu com névoa matinal Photo by Luis Henrique Tasso

Foz do Iguaçu: a comunidade árabe-muçulmana majoritariamente xiita da Tríplice Fronteira

A comunidade árabe-muçulmana de Foz do Iguaçu, no Paraná, é na maior parte libanesa. Entre os muçulmanos da cidade, a maioria é xiita. Isso se explica pela região de onde vieram os imigrantes, e não por alguma regra geral do Islã no Brasil1. A maioria dos libaneses que se fixaram na cidade desde a década de 1950 nasceu ou descende de moradores de duas vilas do Vale do Bekaa, Baaloul e Lala, numa região de maioria muçulmana onde convivem sunitas e xiitas1. O fluxo aumentou com a Guerra Civil Libanesa, entre 1975 e 19901. Essa origem bem localizada (duas vilas, e não "o Líbano" inteiro) explica por que Foz foge do padrão geral da imigração sírio-libanesa ao Brasil, que foi na maior parte cristã e, entre os muçulmanos, na maior parte sunita. Esse padrão está no artigo sobre a imigração sírio-libanesa.

De onde vieram: duas vilas do Vale do Bekaa

Posto de fronteira canadense entre montanhas nevadas e céu azul limpo Photo by Claudia Solano

A pesquisadora Aline Maria Thomé Arruda entrevistou dezessete comerciantes para um estudo de 2007 sobre a fronteira Brasil-Paraguai. Catorze vieram das vilas de Baaloul e Lala. Os outros três vieram de outras regiões do Líbano, que a autora descreve como "norte cristão e sul xiita"1. É uma migração em cadeia: famílias e vizinhos de lugares específicos seguem parentes que já estão estabelecidos. Por isso a amostra não representa "a" imigração libanesa ao Brasil.

Uma reportagem da imprensa nacional, de 2019, confirma de forma independente que o Vale do Bekaa foi a principal região de origem dos imigrantes que se fixaram na fronteira, mas não cita as vilas15. As duas fontes são de tipos diferentes: uma é acadêmica, com entrevistas próprias; a outra é jornalística, sem acesso ao mesmo material de campo. Juntas, elas sustentam o quadro mais amplo (o Vale do Bekaa como região de origem). O detalhe mais fino, os nomes exatos das vilas, depende de uma fonte só.

Por que a maioria é xiita

Mercado noturno movimentado com barracas coloridas e pedestres Photo by Tito Zzzz

Historicamente, o Vale do Bekaa tem população muçulmana mista, com xiitas e sunitas. Só isso já separa Foz de um recorte genérico "libanês"1. Com base no próprio trabalho de campo, Arruda estima que cerca de 95% da comunidade árabe de Foz é muçulmana e que a maior parte desses muçulmanos é xiita1. É uma estimativa da pesquisadora, não um censo nem um levantamento institucional, e deve ser lida assim.

A imigração sírio-libanesa ao Brasil como um todo seguiu o caminho oposto: foi na maior parte cristã e, entre os muçulmanos, na maior parte sunita, como mostra o artigo sobre esse fluxo migratório mais amplo. Foz é uma exceção regional, explicada pela origem específica dos imigrantes. Não é uma regra do Islã brasileiro, e o padrão não se repete no resto do país, de maioria sunita, como registra o artigo sobre mesquitas e entidades islâmicas do Brasil.

Regina Coeli Machado e Silva, em 2008, confirma essa pluralidade religiosa. Ela registra a mesquita sunita Omar Ibn Al-Khattab e a Sociedade Beneficente Islâmica, xiita, como organizações religiosas distintas na cidade, sem dar percentual9. Silvia Montenegro, em artigo de 2018 sobre o senso de comunidade entre muçulmanos na fronteira Brasil-Paraguai, conta que em menos de duas décadas muçulmanos árabes xiitas e sunitas ergueram, separadamente, mesquitas, centros religiosos, um cemitério e três escolas na região7. Nenhuma das duas fontes dá uma proporção entre as duas correntes.

Quantos são: o número repetido e o número com fonte

O dado com a fonte mais sólida compara Foz com o resto do Brasil, não com o mundo. Segundo levantamento acadêmico de Franciely Ferreira Pinto de Oliveira, na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Foz do Iguaçu tem a segunda maior comunidade árabe do Brasil, atrás de São Paulo, com 12 mil imigrantes e descendentes (estimativa de 2015)3. É uma contagem de imigrantes e descendentes, não um censo, e deve ser lida assim.

Você provavelmente já leu outra afirmação, que circula muito mais, sobretudo em material turístico e na imprensa de nicho: Foz do Iguaçu seria "a segunda maior comunidade libanesa do mundo fora do Líbano". Nesta pesquisa, não encontramos fonte primária, censo ou ranking internacional que sustente esse segundo lugar mundial. Nenhuma das fontes turísticas ou de imprensa de nicho que repetem o número diz de que instituição, pesquisa ou metodologia ele vem14.

A Organização Internacional para Migrações, em nota publicada pela ONU News em novembro de 2024, diz algo bem mais modesto e sem ranking: Foz tem "uma das maiores comunidades libanesas fora do Líbano", e não "a segunda maior do mundo"13. Por isso tratamos o segundo lugar mundial como o que ele é: um número muito repetido, sem fonte primária confirmada, e não um fato estabelecido.

Uma mesquita e uma hussainiyah

Hoje a comunidade árabe-muçulmana de Foz se organiza em duas instituições religiosas distintas, uma para cada corrente. A sunita é o Centro Cultural Beneficente Islâmico (CCBI), fundado em 1981, que mantém a Mesquita Omar Ibn Al-Khattab. A pedra fundamental foi lançada em 198310. As fontes divergem sobre quando a obra terminou e quantas pessoas a mesquita comporta. A página institucional do CCBI dá 1987 e 580 pessoas; uma comunicação acadêmica de 2015 na Universidade de Caxias do Sul dá 1988 e 800 pessoas1016. Não escolhemos entre os dois números: as duas versões continuam em aberto nesta pesquisa.

A própria entidade que administra a mesquita a descreve como a maior cúpula de concreto de vão livre da América Latina10. Segundo reportagem local, os minaretes têm 31 metros e a arquitetura foi inspirada na mesquita de Al-Aqsa11. Em 2025, a mesquita recebeu 71 mil visitantes turísticos, 12,7% a mais que os 63 mil de 2024. Os brasileiros lideram, seguidos por chilenos e argentinos11. Ela faz parte dos roteiros de turismo cultural e religioso da cidade, entre eles o Programa Muslim Friendly, lançado em 26 de agosto de 202617 e explicado em detalhe no guia de turismo muçulmano já publicado neste site.

A instituição xiita é a Sociedade Beneficente Islâmica de Foz do Iguaçu, fundada em 1988, com prédio concluído em 1993 e sede na Hussainiyah Imam Al-Khomeini, nome que remete diretamente ao líder da Revolução Iraniana de 1979 (hussainiyah é uma casa xiita de reunião e comemoração religiosa, diferente da mesquita)2. A entidade também mantém a Escola Árabe Brasileira de Foz do Iguaçu, em outro endereço, e é uma pessoa jurídica separada do CCBI, com CNPJ próprio212.

Financiamento: o que está documentado e o que não está

Sobre a mesquita sunita, a própria entidade explica de onde veio o dinheiro, na página institucional: "a obra só foi possível com o envolvimento direto da comunidade árabe e muçulmana, por meio de suas doações... com contribuições individuais e institucionais árabes e não árabes"10. Nem essa fonte nem nenhuma outra que encontramos nesta pesquisa menciona financiamento de governo estrangeiro para essa mesquita.

Sobre a entidade xiita, não encontramos nenhuma fonte que confirme ou negue financiamento estrangeiro para a Hussainiyah Imam Al-Khomeini. O nome da sede é real e documentado2. Ele sinaliza afinidade simbólica com a Revolução de 1979, mas, por si só, não sinaliza financiamento estatal. Também não estendemos essa leitura por analogia com nenhum outro caso.

Registramos um contraste porque ele é real e documentado: a Mesquita do Brás, em São Paulo, outro polo xiita organizado do país, já tratado no artigo sobre mesquitas e entidades islâmicas do Brasil. Lá, o financiamento iraniano é declarado e específico: a doação do mihrab (nicho que indica a direção da oração), dos tapetes e das inscrições do templo, segundo pesquisa do antropólogo Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto publicada na Revista USP em 20054. É uma diferença concreta entre os dois polos. Isso não autoriza projetar nada sobre Foz, onde as fontes que reunimos simplesmente não trazem essa documentação.

Quanto pesa o xiismo de Foz no país

Uma pesquisa de campo de Marcelle Ferreira De Araújo Andrade, também pela UNILA, feita entre 2014 e 2015, estima em cerca de 7 mil pessoas a comunidade xiita de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este somadas2. Para a Mesquita do Brás, em São Paulo, o xeque local estimou em 2005 cerca de 20 mil membros4.

Esses números não podem ser comparados diretamente. Os métodos de contagem são diferentes (pesquisa de campo com entrevistas num caso, autodeclaração da liderança religiosa no outro), as datas também (2015 e 2005), e as bases populacionais idem: uma cidade de cerca de 250 mil habitantes, de um lado, e a região metropolitana de São Paulo, de outro. Com o que reunimos, não dá para afirmar que Foz é o maior polo xiita organizado do país.

O que os números sustentam é uma afirmação mais modesta e mais precisa: Foz é o lugar onde o xiismo é a corrente proporcionalmente dominante entre os muçulmanos locais, ao contrário do resto do país, de maioria sunita, como os artigos anteriores deste bloco já registraram. A afirmação é sobre concentração e visibilidade local, não sobre tamanho absoluto.

Comércio: Foz não é Ciudad del Este

Na cobertura leiga, o comércio da região costuma ser tratado como um bloco único de "fronteira". Mas Foz do Iguaçu (Brasil) e Ciudad del Este (Paraguai) são cidades de dois países, com jurisdições, leis e perfis comerciais diferentes. Em Foz, o comércio se concentra em torno da Avenida Brasil e da Vila Portes desde o fim dos anos 1960 e ao longo dos anos 1970. Mais de 80% da população local trabalha em comércio e serviços, segundo levantamento acadêmico de 2015. É um número de fonte única, a ser tratado como estimativa qualitativa, não como dado censitário3.

Do lado paraguaio, o comércio de Ciudad del Este cresceu a partir do mesmo período, mas com outro perfil. Segundo Arruda (2007), o comércio de Foz nasceu mais têxtil e mais regulamentado, enquanto o de Ciudad del Este passou a reunir "importadoras e exportadoras dos mais diversos produtos", com dinâmica mais informal e mais capital em circulação1. As duas margens são ligadas pela Ponte da Amizade e, em parte, por uma diáspora libanesa que atua nos dois lados. Mesmo assim, são dois comércios, em dois países, sob duas legislações.

Desde os anos 1990, essa mesma região tem um histórico documentado de financiamento e lavagem de dinheiro ligados ao Hezbollah. Os fatos, com data e fonte, estão no artigo sobre terrorismo no Brasil e na Tríplice Fronteira, que também separa o que está provado do que nunca foi confirmado oficialmente. Esse histórico trata de redes e operações financeiras específicas, identificadas pelo nome nas investigações citadas lá, e não da comunidade árabe-muçulmana de Foz como grupo.

O comércio, as mesquitas e a origem migratória descritos aqui pertencem a outro registro. Valem para eles o mesmo argumento etnográfico (rede de parentesco, instituição religiosa, escola própria) que se aplicaria a uma comunidade judaica, católica ou de qualquer outra origem e fé organizada em torno de imigração e culto comuns.

Leia antes

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Referências

Fontes

  1. Arruda, Aline Maria Thomé. "Diferenciação e estereotipificação: libaneses na fronteira Brasil-Paraguai." Universidade Católica de Brasília, Relações Internacionais, v. 5, n. 1/2, p. 43-65, jan./dez. 2007. https://publicacoesacademicas.uniceub.br/relacoesinternacionais/article/viewFile/480/513 (abre em nova aba) · 🟢 🔍 (lido via ferramenta de proxy de leitura, não diretamente).

    ↩
  2. Andrade, Marcelle Ferreira De Araújo. "Islã em Foz do Iguaçu: notas etnográficas sobre a religião." Trabalho de conclusão, Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), 2017. https://dspace.unila.edu.br/server/api/core/bitstreams/12724c4b-6627-454e-bd51-ffe0876d8039/content (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  3. Oliveira, Franciely Ferreira Pinto de. "O papel dos libaneses na economia de Foz do Iguaçu - PR." Trabalho de Conclusão de Curso, Ciências Econômicas, UNILA, 2015. https://dspace.unila.edu.br/items/02ab7f26-8537-446b-b1a3-a854f99feb7d (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  4. Pinto, Paulo Gabriel Hilu da Rocha. "Ritual, etnicidade e identidade religiosa nas comunidades muçulmanas no Brasil." Revista USP, n. 67, p. 228-250, 2005. https://revistas.usp.br/revusp/article/download/13467/15285/0 (abre em nova aba) · 🟢.

    ↩
  5. Montenegro, Silvia. "Sense of community among Muslims in the Brazil–Paraguay border: narratives of belonging and generational differences." Journal of Contemporary Religion, v. 33, n. 3, p. 509-526, 2 de setembro de 2018. DOI: 10.1080/13537903.2018.1535376. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/13537903.2018.1535376 (abre em nova aba) · 🟢 🔍 (só abstract; texto completo bloqueado).

    ↩
  6. Silva, Regina Coeli Machado e. "Reordenação de identidade de imigrantes árabes em Foz do Iguaçu." Trabalhos em Linguística Aplicada, 2008. https://www.scielo.br/j/tla/a/RFFBKcKz8XpmMzBnrLdKQ4x/?lang=pt (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  7. CCBI (Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu). "O CCBI." Página institucional. https://www.mesquitafoz.com.br/br/sobre (abre em nova aba) · 🟢, lida diretamente.

    ↩
  8. H2FOZ. "Visitas à mesquita de Foz do Iguaçu cresceram 12,7% em 2025." 13 de janeiro de 2026. https://www.h2foz.com.br/turismo/passeios/visitas-mesquita-foz-do-iguacu-2025/ (abre em nova aba) · 🟢, lida diretamente.

    ↩
  9. Casa dos Dados. Registro CNPJ da "Sociedade Beneficente Islâmica de Foz do Iguaçu", CNPJ 78097706000100. https://casadosdados.com.br/solucao/cnpj/sociedade-beneficente-islamica-de-foz-do-iguacu-78097706000100 (abre em nova aba) · 🟡 🔍 (acesso direto retornou HTTP 403; existência confirmada só por indexação de busca).

    ↩
  10. Organização Internacional para Migrações (OIM), citada por ONU News. "Libaneses que chegam ao Brasil enfrentam desafios financeiros e de saúde mental." 8 de novembro de 2024. https://news.un.org/pt/story/2024/11/1840396 (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  11. Jornal do Líbano. "Aniversário: Foz do Iguaçu é a cidade com a segunda maior comunidade libanesa no mundo." https://www.jornaldolibano.com.br/aniversario-foz-do-iguacu-e-a-cidade-com-a-segunda-maior-comunidade-libanesa-no-mundo/ (abre em nova aba) · 🟡, acesso direto bloqueado por verificação anti-bot; conteúdo não confirmado além do título indexado.

    ↩
  12. Correio Braziliense. "Após Paraguai considerar Hezbollah terrorista, Brasil pode fazer o mesmo." 20 de agosto de 2019. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2019/08/20/interna_mundo,778079/apos-paraguai-considerar-hezbollah-terrorista-brasil-pode-copiar.shtml (abre em nova aba) · 🟢 🔍.

    ↩
  13. Cardozo, Poliana Fabíula. "A imigração árabe em Foz do Iguaçu: conservando sua cultura." Comunicação apresentada em evento acadêmico, Universidade de Caxias do Sul, 2015. https://www.ucs.br/site/midia/arquivos/75-imigracacao-arabe.pdf (abre em nova aba) · 🟡 🔍.

    ↩
  14. ANBA (Agência de Notícias Brasil-Árabe). "Foz do Iguaçu lança Programa Muslim Friendly." 28 de agosto de 2026. https://anba.com.br/foz-do-iguacu-lanca-programa-muslim-friendly/ (abre em nova aba) · 🟢, confirma lançamento em 26 de agosto de 2026, à noite, na Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, iniciativa do CCBI em parceria com a prefeitura de Foz do Iguaçu e o setor turístico municipal.

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