IrãRevisado em 8 de setembro de 2026
A Revolução Iraniana de 1979
Em fevereiro de 1979, uma coalizão de clero khomeinista e não khomeinista, bazar, sindicatos, esquerda marxista e nacionalistas liberais derrubou a monarquia dos Pahlavi. Nos onze meses seguintes, a corrente liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini nomeou o governo antes de qualquer eleição, substituiu a assembleia constituinte que havia prometido por outra sob domínio clerical e eliminou, uma a uma, as demais forças da coalizão. Reconstruímos aqui o processo mês a mês — com o que cada corrente queria e o que fez, não só o que sofreu.
A Revolução Iraniana de 1979 derrubou a monarquia dos Pahlavi entre janeiro e fevereiro daquele ano por uma coalizão que incluía o clero khomeinista, o clero não khomeinista ligado ao grande aiatolá Muhammad Kazem Shariatmadari, o bazar de Teerã, sindicatos do setor petroleiro, os nacionalistas liberais da Frente Nacional e do Movimento pela Liberdade de Mehdi Bazargan, e duas organizações de esquerda armada, o Fedaiyan-e Khalq e o Mojahedin-e Khalq1. Nos onze meses seguintes, a corrente liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini absorveu o poder que essa coalizão havia conquistado junta: nomeou o primeiro-ministro antes de qualquer eleição, invocando um princípio de autoridade que a Constituição consagraria depois39, prometeu e não entregou uma assembleia constituinte eleita, substituindo-a por uma Assembleia de Especialistas dominada pelo próprio clero23, e eliminou — por proibição, prisão domiciliar, execução ou expulsão — as demais forças da coalizão, até consagrar, na Constituição de dezembro de 1979, um Estado regido pela doutrina do wilayat al-faqih (tutela do jurista)123. Como isso aconteceu, o que cada corrente queria e o que fez — não só o que sofreu — é o que reconstruímos aqui.
1º de fevereiro de 1979: a volta e o colapso em duas semanas
Khomeini retornou a Teerã na manhã de 1º de fevereiro de 1979, aos 76 anos, depois de quase quinze anos de exílio, num avião fretado da Air France que o levava desde a noite anterior, acompanhado de Ebrahim Yazdi, Sadegh Qotbzadeh e Abolhassan Bani-Sadr39. Os três seriam, com o tempo, empurrados para fora do processo que ajudaram a trazer — Bani-Sadr seria o primeiro presidente da República e depois destituído; Qotbzadeh seria executado em 1982 sob acusação de golpe. A palavra de ordem que resumiu o dia, segundo Algar, foi "shah raft, emam amad" — "o xá foi, o imã veio"39. Do aeroporto, Khomeini foi ao cemitério de Behesht-e Zahra, onde chamou o governo em exercício de Shapour Bakhtiar de "último suspiro débil" do regime Pahlavi e advertiu os comandantes das Forças Armadas a não resistir39. No quartel-general provisório instalado na escola Rafah, o clérigo Sadegh Khalkhali, nomeado chefe de um tribunal revolucionário, começou de imediato julgamentos sumários de figuras do regime deposto — entre elas o ex-primeiro-ministro Amir-Abbas Hoveyda39.
Em 4 de fevereiro, Bazargan, consultado por Khomeini, deu seu acordo "com alguma relutância", segundo Algar39. Em 5 de fevereiro, invocando publicamente o princípio da welayat, Khomeini anunciou a nomeação de Bazargan como chefe do governo provisório e o encarregou, com o gabinete, de preparar um referendo sobre proclamar o Irã uma República Islâmica — referendo que, segundo o próprio anúncio, "abriria caminho para a eleição de uma assembleia constituinte para elaborar uma nova constituição"39. Duas coisas nessa frase sustentam o resto do artigo: Khomeini nomeou o chefe de governo antes de qualquer votação, invocando uma autoridade que a Constituição de dezembro consagraria como base do Estado — tratada em profundidade no artigo sobre o wilayat al-faqih, que não repetimos aqui —; e prometeu uma assembleia constituinte eleita que, como se verá adiante, nunca aconteceu.
Em 7 de fevereiro houve manifestações de massa em apoio ao governo provisório39. Em 10 de fevereiro, Bakhtiar decretou toque de recolher a partir das 16h; Khomeini ordenou que fosse desobedecido e ameaçou emitir fatwa formal de jihad se elementos do Exército leais ao xá continuassem a matar manifestantes39. Em 11 de fevereiro, o Conselho Supremo Militar retirou o apoio a Bakhtiar — é essa a data que o próprio regime celebra como o dia da vitória revolucionária ("22 Bahman")39. Algar situa o colapso completo de "todos os órgãos do regime, políticos, administrativos e militares" um dia depois, em 12 de fevereiro39. Não escolhemos entre as duas datas: registramos a sequência — 11 de fevereiro é o dia que o regime adotou como feriado; 12 de fevereiro é onde a fonte lida diretamente situa o colapso das instituições. Bakhtiar fugiu para Paris, tentou depois organizar tentativas de golpe e foi assassinado em agosto de 1991391.
No fim de fevereiro de 1979 — Algar dá a data de "29 de fevereiro", que não existe: 1979 não foi ano bissexto, e a data é um erro da própria fonte, provavelmente por confusão com o calendário iraniano — Khomeini mudou-se para Qom, que Algar descreve como tendo se tornado, na prática, "a segunda capital do Irã", não um centro apenas de orientação espiritual, como Bakhtiar chegara a esperar39.
A coalizão: quem estava nas ruas, e o que cada um queria
A revolução foi feita por organizações com nome, projeto e conduta próprios — não por "os iranianos" em bloco.
O Partido Republicano Islâmico (PRI), fundado em fevereiro de 1979 e liderado por Mohammad Beheshti, organizou a base política de Khomeini e queria a implantação da wilayat al-faqih como estrutura de Estado — o percurso doutrinário está no artigo dedicado ao tema, que não refazemos aqui.
O Partido Republicano Muçulmano do Povo (PRM), em persa Hezb-e jomhuri-e khalq-e mosalman, foi estabelecido em março de 1979 sob a liderança espiritual do grande aiatolá Shariatmadari (também referido, por outra fonte que consultamos, como "Muslim People's Islamic Republic Party" — MPIRP; mesma organização, não duas)3936. Shariatmadari sustentava, como já registrado no artigo sobre o wilayat al-faqih, que os assuntos da comunidade eram responsabilidade conjunta de todos os juristas qualificados, não de um só — posição que não repetimos aqui em detalhe.
O bazar financiou clérigos rebeldes e organizou parte do apoio logístico à revolução, segundo cobertura da imprensa brasileira que consultamos13.
Os sindicatos do setor petroleiro derrubaram a produção iraniana em 4,8 milhões de barris por dia — cerca de 7% da produção mundial da época — até janeiro de 1979, por meio de comitês de greve autônomos (shoras), paralisando a receita do Estado2.
A Frente Nacional, herdeira de Mossadegh, teve em Karim Sanjabi sua figura mais visível no governo provisório, como ministro das Relações Exteriores entre 11 de fevereiro e 1º de abril de 1979 — não localizamos, em fonte lida diretamente, nem a motivação declarada para sua saída do cargo depois de menos de dois meses nem confirmação própria dessas datas, que reunimos por síntese de busca16. A Frente Nacional Democrática, do mesmo campo nacionalista, organizou em junho de 1979 uma conferência das nacionalidades iranianas reivindicando autonomia para curdos e outras minorias e liberdade de imprensa — também por síntese de busca, sem leitura direta de fonte própria16.
O Movimento pela Liberdade do Irã, fundado em maio de 1961 por Mehdi Bazargan, o aiatolá Mahmud Taleqani e Yadollah Sahabi, de orientação islâmico-modernista e constitucionalista, colaborou com a rede de Khomeini na organização dos protestos de 1978-1979 e forneceu o primeiro-ministro do governo provisório5. Queria uma república islâmica de conteúdo democrático — um projeto que, segundo formulação atribuída a Ervand Abrahamian por um artigo acadêmico brasileiro que consultamos (citação de segunda mão, não conferida na obra original), pretendia ser uma república islâmica de nome, mas democrática em seu conteúdo de fato14.
O Tudeh, partido comunista pró-Moscou sob a liderança de Noureddin Kianouri, adotou apoio tático a Khomeini, como uma força que via como progressista naquele momento, na expectativa de que cedesse lugar mais adiante a forças que considerava mais alinhadas ao próprio programa — descrição que reunimos por síntese de busca, sem fonte acadêmica nomeada que a sustente diretamente16.
O Fedaiyan-e Khalq, guerrilha marxista fundada em abril de 1971, inspirada em Mao, Ho Chi Minh e Che Guevara, teve em seu primeiro ataque armado — fevereiro de 1971, um posto de gendarmaria em Siahkal — o que Ervand Abrahamian descreveu como catalisador do movimento revolucionário iraniano mais amplo435. Um comício sob a bandeira da organização reuniu meio milhão de pessoas em Teerã no 1º de Maio de 1979 — número que o próprio verbete da Encyclopaedia Iranica atribui a outro autor, Alaolmolki, citação de segunda mão dentro da fonte35.
O Mojahedin-e Khalq, guerrilha que combinava elementos de Islã e marxismo, tinha base social descrita, numa resenha acadêmica que consultamos, como "predominantemente formada pela jovem intelligentsia, sobretudo filhos da classe média tradicional"11.
Poder duplo: o governo que Bazargan chamou de "faca sem lâmina"
Ao lado do governo oficial de Bazargan, operava — "com impunidade e fora da jurisdição dele", segundo o historiador Mohsen Milani — um conjunto de instituições revolucionárias: tribunais revolucionários (dadgahha-ye enqelab), comitês revolucionários de bairro (komitaha-ye enqelab, ou komitehs) e a Guarda Revolucionária (Sepah-e pasdaran, o IRGC), criada por decreto de Khomeini em 5 de maio de 1979241. No projeto de Bazargan, o Irã seria um sistema presidencial democrático, com o clero xiita em papel supervisor dos assuntos de Estado24.
O próprio Bazargan resumiu o que seu governo era, numa frase citada por Milani: "uma faca sem lâmina" ("a knife without a blade")24. O vice-primeiro-ministro e porta-voz do governo, Abbas Amir-Entezam, deu a essa metáfora um conteúdo concreto em 15 de março de 1979: "Eu não sei, e o primeiro-ministro também não sabe ao certo, quantos prisioneiros há na prisão de Qasr. Não sabemos quais são as condições porque não encontramos meio de entrar"25. O governo provisório não conseguia entrar na própria prisão. Amir-Entezam, designado pelo mesmo governo como interlocutor com os Estados Unidos, seria depois preso2425.
Foi nesse quadro que Khalkhali, à frente do tribunal instalado na escola Rafah desde 1º de fevereiro, sentenciou à morte Amir-Abbas Hoveyda, primeiro-ministro do xá entre 1965 e 1977, executado na prisão de Qasr em 7 de abril de 19793925. A Anistia Internacional reproduziu o indiciamento completo: entre as acusações contra Hoveyda estavam "corrupção na terra, guerra contra Deus, contra o povo de Deus e contra o representante do Imã", "participação em ameaças e terrorismo contra pessoas justas... e limitação de suas liberdades ao prender jornalistas e exercer censura sobre a imprensa e os livros", "relato falso por meio de jornais escolhidos a dedo", ter fundado e ocupado a primeira secretaria-geral do partido único Rastakhiz, e filiação à maçonaria25. O jornal Ettela'at, de 8 de abril de 1979, citado pela Anistia, registrou a fala do promotor ao réu: "Este tribunal não está julgando o senhor. Está julgando o sistema. O sistema do qual o senhor é representante, executor. Nesse sistema as pessoas não eram levadas em conta. O país estava completamente sob influência estrangeira. A SAVAK levava nossos jovens e combatentes para serem torturados e trucidados. O senhor era, resumindo, favorável a esse sistema?"25. Quatro meses e treze dias depois de executar o homem acusado de censurar a imprensa, em 20 de agosto de 1979, o mesmo aparato revolucionário mandaria fechar jornais de oposição — o assunto da próxima seção.
A repressão começa antes de a Constituição existir
Em 20 de agosto de 1979, o procurador revolucionário de Teerã, aiatolá Qomi, ordenou o fechamento de 22 jornais de oposição; a Anistia Internacional, num relatório de fevereiro de 1980 sobre o período até 14 de setembro daquele ano, registra ter "ouvido" que ao todo 26 publicações foram mandadas encerrar naquele momento; o Guardian, de Londres, noticiou em 10 de setembro de 1979 que 27 jornais haviam sido fechados em agosto25. Não escolhemos um número: os três vêm de fontes diferentes, e a pequena variação entre eles é parte do que há para registrar. O testemunho de Fred Halliday, professor da London School of Economics que viajou pelo país naquele mesmo agosto, confirma de forma independente o fato do fechamento: dias depois de o chefe da rádio e televisão estatal, Sadegh Qotbzadeh, atacar a oposição de esquerda, "o proeminente jornal democrático Ayandegan é fechado, e em uma semana todos os jornais e escritórios de esquerda do país foram fechados"37. O Abdorrahman Boroumand Center, terceira fonte independente, registra o fechamento de "22 publicações de grupos de oposição" naquele mesmo agosto36.
No Curdistão, os curdos inicialmente apoiaram a revolução esperando maior autonomia; quando as demandas não foram atendidas, teria início, a partir de meados de março de 1979, um levante armado — informação que reunimos por síntese de busca, sem leitura direta de fonte própria16. A data exata de uma fatwa de jihad de Khomeini contra os curdos diverge entre as fontes: 17 de agosto, segundo a ONG curda Hengaw, citando um relatório da Anistia de 2008 que não lemos diretamente18; ou 18 de agosto, segundo o Council on Foreign Relations17. Fontes secundárias atribuem essa fatwa a uma leitura de um versículo do Alcorão sobre combater os que se rebelam contra a autoridade legítima; não conferimos essa atribuição contra uma tradução própria e por isso não a citamos literalmente18.
Entre 20 e 28 de agosto de 1979, tribunais revolucionários itinerantes sob Khalkhali promoveram execuções sumárias em massa no Curdistão: em Paveh (20-21 de agosto), 9 fuzilados, mais 7 em Kermanshah; em Mariwan (25-26 de agosto), 9 executados; em Sanandaj (27-28 de agosto), 11 executados "após poucas horas de investigação"7. Entre 18 de agosto e 3 de setembro, fontes contemporâneas falam em "até 80" execuções em três semanas; por volta de 24 de agosto, uma estimativa dava conta de 600 mortos no total, sem distinguir combatentes de civis7. A Anistia acrescenta detalhe: o Partido Democrático do Curdistão (KDP) foi proibido sob acusação de separatismo; Khalkhali foi encarregado por Khomeini de julgar os envolvidos; em 22 de agosto Khomeini ofereceu perdão aos rebeldes em troca de rendição, e 31 membros do KDP haviam sido executados desde o domingo anterior; até 28 de agosto estimava-se um total de 61 execuções ordenadas por Khalkhali, e um relato posterior fala em 68; em 10 de setembro Khomeini foi citado chamando os dois líderes curdos, Sheikh Hosseini e Abdul Rahman Ghassemlou, de "traidores" que deveriam ser executados25.
A Anistia documenta os dois lados do confronto: rebeldes curdos também executaram — quatro guardas revolucionários foram mortos em Mahabad em 27 de agosto, em retaliação à execução de nove curdos em Marivan; a Rádio Irã noticiou 15 ou 16 execuções pelo KDP em 5 de setembro; o KDP declarara que executaria um guarda por cada curdo executado pelos tribunais; e um médico julgado em Saqqez alegou ter sido pressionado, sob ameaça de morte, pelo KDP e pelos Fedaiyan25. A própria Anistia declara o limite do que apurou: "não foi capaz de reunir mais detalhes sobre pessoas executadas no Curdistão"25. A cifra de "cerca de 10 mil" curdos mortos ao longo da Guerra do Curdistão de 1979-1983 circula atribuída pela Hengaw a um relatório da Anistia de 2008 que não lemos diretamente — registramos aqui como estimativa de procedência frágil, não como fato duplamente sustentado18.
Há também um dado que complica qualquer narrativa simples: em 18 de outubro de 1979, Khomeini ordenou restrições às execuções e determinou que os tribunais operassem conforme a prática islâmica; o Guardian, em 6 de abril, já noticiara que tribunais fora de Teerã haviam sido autorizados a continuar julgamentos, mas com as execuções proibidas — e a própria Anistia registra não conseguir datar com precisão quando essa pausa começou, situando-a entre 14 e 17 de março25. Entre os executados nesses meses estavam membros da SAVAK e policiais condenados por atirar em manifestantes anti-xá — e, simultaneamente, pessoas executadas ou açoitadas por adultério, tráfico de heroína e "especulação" comercial25. O novo Estado julgava os crimes do antigo regime e já aplicava, no mesmo período, penas de um código religioso. A obrigação de julgamento justo, note-se, não nasceu com o novo regime nem morreu com o antigo: o Irã havia ratificado o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos em 24 de junho de 1975, ainda sob o xá36.
A Anistia Internacional sustenta boa parte dos números de execução, prisão e repressão deste artigo — os dois relatórios usados aqui datam de fevereiro de 1980 e de dezembro de 1981. A antropóloga Homa Hoodfar, presa em Teerã em 2016 sob acusação de "flertar com o feminismo", escreveu em 2018 que, ao longo dos anos 1980, a Anistia "recusou-se a fazer campanha por ativistas de gênero presas e torturadas, insistindo que não eram ativistas políticas" e portanto estavam fora de seu mandato — afirmação de Hoodfar, em artigo de opinião, sem fonte própria citada, que não corroboramos em segunda fonte44. Não invalida os números de execuções que a própria Anistia declara como piso, não como teto, e com metodologia declarada; registramos porque nos apoiamos nela repetidamente ao longo deste texto, e a regra da casa é não usar fonte pela metade.
Mulheres: o 8 de março devolvido, e o direito revogado por decreto
Em 8 de março de 1979, o Irã celebrou o Dia Internacional da Mulher pela primeira vez em mais de cinquenta anos. O xá havia proibido a data e decretado em seu lugar o aniversário da proibição do véu em público imposta por seu pai, em 8 de janeiro de 1936 — a mesma proibição tratada em Como a dinastia Pahlavi caiu e abriu caminho para a teocracia iraniana. A revolução devolveu a data, segundo a historiadora Negar Mottahedeh, professora na Duke University, em Whisper Tapes: Kate Millett in Iran (Stanford University Press, 2019)42.
No dia anterior, 7 de março, Khomeini havia decretado que mulheres deveriam usar hijab para entrar em repartições públicas e locais de trabalho — não em qualquer lugar; a obrigatoriedade geral viria depois, como se vê adiante —, dizendo, segundo a reconstrução da CBC Radio Ideas a partir de entrevistas com participantes, que não entrassem "nuas" no local de trabalho43.
Em poucas horas, o 8 de março de 1979 tornou-se o primeiro protesto de rua contra o novo poder — mas as fontes divergem sobre o que precedeu esse protesto. Para Mottahedeh e para a participante Haideh Daragahi, então professora de literatura na Universidade de Teerã, que ajudou a organizar uma das comemorações, era uma celebração planejada, com oradoras internacionais convidadas — "pela primeira vez na história iraniana", nas palavras de Daragahi43 — que se transformou em protesto; já a antropóloga Homa Hoodfar, também testemunha do período, descreve um protesto espontâneo que "coincidentemente" caiu no dia 8, "um dia não costumeiramente marcado ou notado no Irã"44. Registramos as duas versões, nomeadas, sem escolher uma.
A escritora feminista americana Kate Millett chegou a Teerã em 7 de março de 1979, a convite de ativistas iranianas, para discursar no evento — foi a única oradora internacional convidada que efetivamente compareceu, viajando com a jornalista canadense Sophie Keir42. Segundo Mottahedeh, a celebração do 8 de março era, ela mesma, "um símbolo de uma revolução que as mulheres haviam lutado e vencido, lado a lado com homens, contra um xá autocrático" (tradução nossa)42 — convergente com o que as historiadoras Janet Afary e Kevin Anderson registram, por leitura direta da introdução do próprio artigo delas: o protesto reuniu "mulheres e meninas iranianas urbanas e seus apoiadores homens"27. Mottahedeh registra também o limite da própria testemunha: Millett não falava persa e era "estranha aos instintos das mulheres iranianas ao seu redor" (tradução nossa)42.
Os números que circulam para esse episódio divergem, e nenhuma fonte com autoria identificável sustenta a cifra mais repetida na internet em língua inglesa, "mais de 100 mil" — encontramos essa cifra em duas páginas sem processo editorial acadêmico aparente, nenhuma delas citando origem para o número, e por isso não a usamos4041. Niloufar Nematollahi, autora do artigo e coeditora do projeto de arquivo yearzero1979.org, citando o jornal iraniano da época Ayandegan, dá "15 mil a 20 mil" manifestantes ao todo26. O próprio yearzero1979.org, reunido em torno do material filmado em 1979 pelo coletivo feminista francês des femmes, registra números por dia: 3 mil mulheres num estádio coberto em 8 de março, 5 mil ocupando o átrio do Ministério da Justiça em 10 de março, e 50 mil na maior marcha de rua, em 12 de março — não em 8 de março29. Afary e Anderson dão "ao menos 50 mil" como o pico da semana27. A pesquisadora Nahid Siamdoust fala em "dezenas de milhares" ao longo de seis dias28. A leitura que sustentamos, a partir dessas quatro fontes nomeadas, é de uma faixa entre 15 mil e 50 mil manifestantes, conforme o dia, com o pico — documentado por três linhas independentes — em torno de 50 mil, ocorrido em 12 de março. Os protestos se estenderam por seis dias contínuos, segundo Nematollahi26 e, de forma independente, segundo a monografia de Mottahedeh42.
Diante do gabinete do primeiro-ministro, dezenas de milhares de mulheres se reuniram em Teerã na manhã de 8 de março; outras três mil protestaram em Qom, onde Khomeini residia, segundo a reconstrução da CBC Radio Ideas43. O protesto reuniu ativistas de direitos das mulheres e mulheres profissionais — enfermeiras e servidoras públicas preocupadas em perder o emprego — e as manifestantes foram atacadas por contramanifestantes, com facas, pedras, tijolos e cacos de vidro43. Poucos dias depois, segundo a mesma reconstrução, o aiatolá Mahmud Taleqani retratou as declarações de Khomeini43.
O Fedaiyan-e Khalq formou um cordão de proteção em torno das manifestantes e depois retirou o apoio, por receio de enfraquecer a revolução — o mesmo padrão, descrito por Milani para a coalizão mais ampla, de a esquerda contribuir para a própria derrota2724. A palavra de ordem registrada por Afary e Anderson foi: "No amanhecer da liberdade, não temos liberdade" (tradução nossa)27.
Sobre a cronologia da obrigatoriedade do véu depois desses dias, há duas reconstruções que não conseguimos conciliar. Segundo a CBC/Ziaee, o Sindicato Nacional das Mulheres, fundado em 1979, passou a apoiar mulheres ameaçadas de demissão por recusar o véu; em julho de 1980, centenas de mulheres protestaram de novo, diante do gabinete presidencial, contra uma tentativa de reinstituir a obrigatoriedade; e em 1981 o véu tornou-se obrigatório para todas as mulheres acima de nove anos43. Já segundo Nematollahi e Siamdoust, os protestos de março de 1979 bloquearam a aprovação da lei de hijab obrigatório por cerca de três anos; quando a lei entrou em vigor, por volta de 1982, seguiu-se violência de gênero crescente, com invasões de domicílio, prisões e execuções de organizadoras e exílio forçado; em 1983, o hijab foi imposto a todas as mulheres a partir da puberdade2628. Registramos as duas cronologias, nomeadas, sem escolher uma.
Um fato legal, verificável, importa mais do que qualquer cifra de manifestantes: depois do referendo de março, e ao declarar formalmente o Irã uma república islâmica em 1º de abril de 1979, Khomeini anulou a Lei de Proteção à Família (1967, emendada em 1975), que garantia direitos às mulheres no casamento — segundo a historiadora Janet Afary, que também registra que os komitehs patrulhavam as ruas impondo códigos islâmicos de vestimenta e comportamento e distribuindo justiça sumária15. Três dias depois do protesto de 8 de março, portar um documento já era arriscado: o Ettela'at, em 13 de março de 1979, relatou que num incidente ocorrido em 11 de março uma pessoa flagrada com uma declaração publicada pelo Comitê pelos Direitos das Mulheres foi advertida por membros de um komiteh local de que aquilo era "perigoso"25.
Na manhã de 18 de março de 1979, dez dias depois do início dos protestos, o governo provisório ordenou a expulsão de Kate Millett; ela foi deportada no dia seguinte, sem acusações registradas, segundo Mottahedeh42. É o mesmo governo que, segundo Amir-Entezam, não sabia sequer quantos prisioneiros havia na prisão de Qasr (seção anterior).
O referendo de 30 e 31 de março: o que estava — e não estava — na cédula
O referendo de 30 e 31 de março de 1979 aprovou por esmagadora maioria a instauração de uma República Islâmica, com boicote da Frente Nacional Democrática e da facção Minoria do Fedaiyan-e Khalq3. A própria Al Jazeera, cobertura que usamos com a ressalva de ser mídia estatal do Catar, registrou que "os iranianos permaneciam divididos sobre o que queriam para o futuro" e que o desfecho era, mesmo àquela altura, "longe de ser conclusão inevitável" — formulação da própria reportagem, não afirmação nossa3.
Sobre o que estava escrito na cédula, temos duas descrições que não conseguimos conciliar. Hamid Algar, na Encyclopaedia Iranica, escreve que foi "um voto simples de sim ou não, embora um espaço tenha sido reservado na cédula para sugerir uma alternativa", como "República Islâmica Democrática" ou mesmo monarquia — e que Khomeini, antes da votação, equiparou publicamente essa alternativa à monarquia, segundo mensagem que Algar atribui às obras reunidas de Khomeini (Sahifa-ye Emam, vol. VI, remetendo por sua vez a Davani, vol. X, pp. 300-301 — ver a nota da fonte 39 para a referência bibliográfica completa; textos que não lemos)39. Já três outras fontes — um jornal da diáspora monarquista, uma agência ligada ao establishment clerical de Qom e, de forma independente das duas, The Economist, numa reportagem de 7 de abril de 1979, uma semana depois do referendo — descrevem uma cédula de duas metades destacáveis, "sim" (ari) impressa em verde e "não" (na) em vermelho, que o eleitor destacava e depositava; nenhuma das três menciona espaço para escrever uma alternativa323331. As duas descrições não são necessariamente incompatíveis entre si, mas nenhuma fonte que consultamos afirma as duas coisas juntas, e não temos a imagem da cédula. Registramos as duas versões, nomeadas, sem escolher uma. O que sobrevive intacto às duas é o fato central: a alternativa a "sim" ou "não" havia sido publicamente desqualificada por Khomeini antes da votação, e — segundo The Economist, fonte única para este detalhe — a escolha era feita "à vista dos mulás e outros guardiões da revolução que operavam as seções eleitorais"31. O aiatolá Shariatmadari objetou, segundo o Boroumand Center, que o referendo "limitava os eleitores a aprovar ou rejeitar a República Islâmica" — "uma forma de governo ainda não definida"36. Essa é a leitura que sustentamos como central: o problema nunca foi apenas a redação literal da cédula, e sim a estrutura binária da escolha, sobre um termo que ninguém definia.
Sobre o percentual de aprovação, há duas cifras oficiais, de dois momentos diferentes, e não escolhemos uma como "a" oficial. Em 4 de abril de 1979, Ahmad Nurbakhsh, chefe do comitê central do referendo no Ministério do Interior, anunciou 99,31% de aprovação (20.147.055 votos "sim" de 20.288.021 participantes), segundo um portal iraniano de linha reformista que consultamos34. O preâmbulo da própria Constituição de 1979 registra 98,2% — cifra que a Encyclopaedia Iranica também reproduz, com a data do referendo convertida do calendário iraniano (10-11 Farvardin de 1358)23; a mesma cifra reaparece, décadas depois, numa agência ligada ao establishment clerical, atribuída de forma vaga a "centros de documentação da Revolução Islâmica", com números absolutos (20.054.834 "sim" de 20.422.438 votantes) que batem matematicamente com 98,2% mas divergem dos números absolutos da fonte reformista — duas contagens diferentes, não a mesma contagem arredondada de dois jeitos33. A alteração entre as duas cifras oficiais é, ela mesma, um dado sobre como o Estado narra sua própria fundação.
Há ainda uma armadilha aritmética a evitar: o Boroumand Center registra que Lahuti relatou cerca de 40% de comparecimento na eleição da Assembleia de Especialistas, em agosto, "uma queda acentuada em relação às estatísticas oficiais de 98% de participação no referendo de março anterior"36. Esses 98% são comparecimento — não os 98,2% de aprovação do preâmbulo constitucional. São grandezas diferentes que compartilham o mesmo número por coincidência, e não devem ser somadas nem trocadas entre si. Sobre o comparecimento na própria eleição de agosto, há uma segunda cifra, que tratamos lado a lado com esta na seção seguinte, sem escolher uma.
A Assembleia de Especialistas: a constituinte prometida que virou outra coisa
A promessa feita em 5 de fevereiro — uma assembleia constituinte eleita para redigir a nova constituição — não se cumpriu na forma prometida, e o processo que a substituiu está documentado com nome de autor. O gabinete de Bazargan e o Conselho da Revolução prepararam, na primavera de 1979, um anteprojeto de constituição semelhante em vários aspectos ao texto de 1907, incluindo um Conselho de Guardiões de cinco mojtaheds (juristas habilitados à interpretação jurídica independente) eleitos pelo Majles (o parlamento iraniano) a partir de lista fornecida pelas fontes de emulação, e seis juristas não clericais23. Segundo o historiador Said Amir Arjomand, "Khomeini estava, segundo relatos, preparado, em junho de 1979, a aceitar esse anteprojeto com apenas alterações mínimas" — e chegou a propor contornar a prometida assembleia constituinte, submetendo o anteprojeto diretamente a referendo23. Foram os modernistas Bazargan e o presidente Bani-Sadr que insistiram na aprovação prévia do texto por uma assembleia eleita, e ficou decidido realizar eleições para essa assembleia em 3 de agosto — decisão de Arjomand, não nossa: foram os liberais que exigiram a assembleia eleita, e é essa mesma assembleia que enterraria o anteprojeto deles23.
Os debates públicos sobre o anteprojeto alarmaram Khomeini, que passou a insistir que só clérigos revisassem o texto "de uma perspectiva islâmica"23. Beheshti propôs, no lugar da constituinte prometida, a ideia de uma "assembleia de peritos", inspirada em Mohammad-Baqer al-Sadr, e persuadiu Khomeini a aceitá-la; Montazeri foi levado por Khomeini a candidatar-se e tornou-se o primeiro presidente da Assembleia, com Beheshti como vice-presidente23. A eleição ocorreu em 3 e 4 de agosto de 1979: 73 assentos, 55 ocupados por mojtaheds, comparecimento de 51,71% (10.784.932 de 20.857.391 eleitores aptos), 428 candidatos registrados, segundo o Iran Data Portal6. O Boroumand Center corrobora, de forma independente, a descrição da assembleia — "no lugar da constituinte maior e mais representativa"36 — mas não o número: o mesmo relatório atribui a Lahuti uma cifra distinta para a mesma eleição, cerca de 40% de comparecimento, já registrada na seção anterior36. Não escolhemos entre as duas: a do Iran Data Portal é estatística eleitoral compilada, com números absolutos; a de Lahuti é declaração política feita numa entrevista de dezembro de 1979. Registramos as duas, lado a lado, como fizemos com os 99,31% e os 98,2% do referendo.
Na quadragésima sessão, em 9 de outubro de 1979, Montazeri definiu o objetivo maior da constituição: eliminar a dualidade tradicional entre autoridade política e religiosa23. Em 7 de novembro, a Assembleia rejeitou um artigo que exigia que o líder e os membros do conselho de liderança fossem cidadãos iranianos residentes no Irã23. Os trabalhos se encerraram em meados de novembro, e o texto foi ratificado em referendo em 2 e 3 de dezembro de 197923. Arjomand fecha essa sequência com uma frase: "a Assembleia de Especialistas havia alterado o anteprojeto submetido pelo governo Bazargan além do reconhecível" (tradução nossa)23. A promessa de 5 de fevereiro — uma constituinte eleita — nunca se cumpriu; nasceu no lugar dela uma assembleia dominada pelo clero, eleita para redigir um texto que consagrou a autoridade de um só jurista.
Tabriz, dezembro de 1979: a última oposição de massa veio de dentro do clero
O episódio mais esquecido de todo o processo aconteceu em dezembro de 1979, e veio do próprio clero xiita, não da esquerda ou dos liberais. O PRM, formado com a bênção de Shariatmadari para combater o partido único, convocou greve geral em Tabriz para 6 de dezembro de 197936. Naquela noite, o governador, o procurador dos tribunais revolucionários e o representante local de Khomeini haviam sumido de seus gabinetes, substituídos por comitês pró-Shariatmadari; forças regulares recolheram-se aos quartéis, e houve manifestações de apoio a Shariatmadari vindas do Exército, da Gendarmaria, da Polícia e da Força Aérea em Tabriz; as bases aéreas de Tabriz e Orumieh — onde pilotos já haviam desobedecido ordens de ajudar a esmagar a revolta no Curdistão — recusaram pouso a um avião que se acreditava levar tropas do governo36. Segundo Hassan Shariatmadari, filho do aiatolá, relatando uma reunião entre os dois, Khomeini teria ameaçado bombardear Tabriz, "como havia feito para esmagar a agitação no Curdistão semanas antes" — é o filho quem conta, e registramos isso como atribuição em dois níveis, não como fato estabelecido36.
O Tudeh condenou a revolta de Tabriz como trama imperialista para enfraquecer o movimento anti-imperialista em favor dos interesses americanos — o mesmo Tudeh que havia apoiado a candidatura de Sadegh Khalkhali à Assembleia de Especialistas, elogiando sua "coragem sem paralelo"36. É o mesmo Khalkhali que a Anistia documenta ordenando execuções sumárias no Curdistão em agosto de 1979 e que sentenciara Hoveyda à morte em abril. O partido comunista elogiou o homem que mandava fuzilar; o fato não precisa de adjetivo. E o oposto também está na mesma fonte: a seção local dos Fedaiyan em Tabriz apoiou inicialmente o movimento de Shariatmadari — nem "a esquerda" como bloco único, nem heroificação de nenhuma das partes; organizações com nome e conduta próprios36.
Sob pressão de Khomeini — que chamava o PRM de invenção estrangeira — e de clérigos de Qom, Shariatmadari declarou em 6 de janeiro de 1980 que, se o partido continuasse a operar, "não seria de modo algum aprovado por mim"36. Foi depois isolado, posto em prisão domiciliar e teve seu estabelecimento religioso confiscado, sob acusações sem julgamento; morreu em 1986, ainda sob prisão domiciliar36. O próprio referendo constitucional de 2 e 3 de dezembro, segundo o Boroumand Center, foi um texto "às pressas redigido" e "às pressas posto em votação", em meio a pedidos de prazo para debate vindos de todo o espectro político e chamados de boicote da maioria dos partidos seculares; Shariatmadari boicotou, opondo-se abertamente à wilayat al-faqih e ao poder de veto do Conselho de Guardiões sobre o parlamento36. As autoridades alegaram 75% de comparecimento — a mesma cifra registrada pelo Brookings1 —; o correspondente do Le Monde relatou ruas vazias em Teerã e filas curtas em duas mesquitas de bairros pobres do sul da cidade, onde se esperava comparecimento alto; no Baluchistão, o governador considerou "um sucesso" o comparecimento de 5%36. No trimestre seguinte a 2 de agosto de 1979, as execuções documentadas pelo próprio banco de dados do Boroumand subiram 45% — de 244 (3 de maio a 2 de agosto) para 354 (2 de agosto a 2 de novembro)36.
A crise dos reféns e a queda do governo provisório
Em 3 de novembro de 1979, o assessor de Segurança Nacional americano Zbigniew Brzezinski se reuniu publicamente com Bazargan e o chanceler Ibrahim Yazdi em Argel, à margem das comemorações do 25º aniversário da revolução argelina — encontro sugerido por Bruce Laingen, encarregado de negócios americano em Teerã, televisionado e transformado em manchete mundial12. Segundo o National Security Archive, o encontro alimentou entre os estudantes que ocupariam a embaixada o temor — que o próprio documento qualifica como "grosseiramente exagerado" — de uma operação de mudança de regime nos moldes de 195312. Em 4 de novembro, estudantes autodenominados "Seguidores da Linha do Imã" tomaram a embaixada americana em Teerã e fizeram reféns — 66 pessoas, segundo Janet Afary1215. (Uma fonte da Encyclopaedia Iranica sobre os Fedaiyan dá 3 de novembro para essa tomada; usamos aqui 4 de novembro, confirmado de forma independente pelo National Security Archive, por Milani e pela Anistia, e citamos aquela fonte apenas pelo que ela documenta sobre a adesão política do Fedaiyan, não pela data35.)
A Maioria do Fedaiyan-e Khalq anunciou a tomada da embaixada como indicação do caráter anti-imperialista de Khomeini, aproximando-se da posição do Tudeh35. Em entrevista de novembro de 1979 — publicada primeiro no jornal ateniense Elevtherotipia e traduzida pelo MERIP em março de 1980 —, Kianouri, do Tudeh, defendeu a tomada como "ação anti-imperialista" e disse buscar "uma frente de cooperação entre todas as forças anti-imperialistas", incluindo a liderança do "campo muçulmano" sob Khomeini — mas reconheceu nunca ter tido contato pessoal direto com o próprio Khomeini, só com assessores8. Bazargan condenou a tomada como violação do direito internacional; dois dias depois do início da crise, em 6 de novembro, renunciou, atribuindo a renúncia às "intervenções das instituições revolucionárias" — o que, escreve Milani, "no vernáculo tortuoso da época era referência inequívoca ao aiatolá Khomeini"24. Com a renúncia, o Irã "virtualmente não tinha governo visível", conduzido pelo Conselho da Revolução e pelas instituições revolucionárias24. "Khomeini e a coalizão de seus seguidores conservadores e de esquerda", escreve Milani, "minaram metodicamente Bazargan"; depois de forçá-lo à renúncia, voltaram-se para Bani-Sadr24. Membros da Frente Nacional secular e do Movimento pela Liberdade, que juntos haviam dominado o governo provisório, foram proibidos de ocupar cargos públicos e de participar de eleições24.
Em 14 de novembro, os Estados Unidos congelaram ativos do governo iraniano e do Banco Central; em 19 e 20 de novembro, o Irã liberou unilateralmente 13 reféns, mulheres e afro-americanos1. Uma semana depois do fim do governo Bakhtiar, meses antes, Yasser Arafat havia chegado a Teerã sem anúncio prévio e fora recebido com um abraço por Khomeini — o primeiro dignitário estrangeiro a visitar o país depois da revolução; as relações com Israel foram imediatamente rompidas, e o prédio que abrigava a missão israelense foi entregue à OLP39. Em 9 de agosto de 1979, Khomeini recomendara que a última sexta-feira do Ramadã fosse observada como Dia de Jerusalém (Ruz-e Qods), em protesto contra Israel39 — a ruptura internacional do novo Estado foi imediata, não posterior, e o tema pertence de forma mais ampla a um artigo próprio sobre a política externa iraniana.
A eliminação, um a um
Em 25 de janeiro de 1980, Bani-Sadr foi eleito o primeiro presidente da República Islâmica1. Em janeiro de 1980, o PRM foi formalmente banido — não conseguimos confirmar esse detalhe em fonte lida diretamente. Em 22 de setembro de 1980, o Iraque invadiu o Irã, iniciando a guerra de oito anos1. Em 21 de junho de 1981, o Majles votou o impeachment de Bani-Sadr depois de semanas de articulação; ele fugiu para a França e cofundou o Conselho Nacional de Resistência do Irã com Massoud Rajavi, do Mojahedin-e Khalq — não confirmamos esse detalhe em fonte lida diretamente. Em 28 de junho de 1981, um atentado a bomba na sede do Partido Republicano Islâmico, em Teerã, matou pelo menos 70 dirigentes, incluindo Beheshti; a autoria foi atribuída ao Mojahedin-e Khalq4. O PRI sobreviveu ao próprio atentado: já dominava a Assembleia de Especialistas e já havia convertido o anteprojeto constitucional em norma vigente.
A repressão de junho de 1981 a março de 1982 é a mais bem documentada e a menos redutível a um único número. A Anistia Internacional, em relatório de 13 de dezembro de 1981, registra "mais de 3.200" execuções desde a revolução — cifra que o próprio documento qualifica como piso, não estimativa central: "baseada em relatos que se tornaram conhecidos fora do Irã, deve ser considerada um mínimo. Fontes da oposição dizem que o total é muito maior"10. O mesmo relatório traz uma comparação: "em 1980, houve 1.229 execuções conhecidas em 29 países ao redor do mundo; 709 delas foram no Irã"10. Nos três meses e meio desde 20 de junho de 1981, "mais de 1.600 execuções conhecidas" ocorreram no Irã, e num único fim de semana — 18 a 20 de setembro de 1981 — "mais de 300 pessoas foram sabidamente executadas"10. Eric Hooglund, em artigo do MERIP de 1984 que consultamos diretamente, estima "cerca de 7 mil" mortos durante a revolta armada do Mojahedin em 1981-19824. Mansour Farhang, numa resenha de 1990 do livro de Ervand Abrahamian sobre o grupo, atribui ao autor a cifra de "12.250" dissidentes políticos executados em quatro anos, três quartos deles do Mojahedin ou simpatizantes — não lemos o livro de Abrahamian diretamente, apenas a resenha que o cita11. Nenhuma dessas quatro cifras é "a" cifra: são recortes de escopos diferentes — execuções totais, execuções durante a revolta armada, execuções atribuídas majoritariamente ao Mojahedin — de períodos parcialmente sobrepostos, e as apresentamos assim, como um mapa, não como um número só.
Segundo a Anistia, quem era executado não se limitava a opositores políticos e minorias étnicas ou religiosas, entre elas bahá'ís: também condenados por crimes comuns — tráfico de drogas, roubo — e por delitos sexuais, como adultério e prostituição; várias centenas de condenados por drogas em 1980, mais de 200 em 198110. Um caso datado: em 20 de setembro de 1981, segundo anúncio da rádio de Teerã, duas pessoas "com a intenção de manifestar-se nas ruas de Teerã" foram presas às 16h, levadas a Evin, sentenciadas à morte às 20h e executadas10. O procurador-geral revolucionário, Musavi Tabrizi, em entrevista à rádio de Teerã em 18 de setembro de 1981, disse que membros capturados de grupos de oposição violenta não seriam detidos nem alimentados por meses "desperdiçando os fundos do tesouro": seriam julgados na rua10.
O Tudeh foi destruído em fases: em fevereiro de 1983, Kianouri e "mais de duas dezenas" de outros dirigentes foram presos; em maio, confessaram publicamente na televisão ser espiões soviéticos; mais de 1.000 outros membros foram presos, e o partido foi dissolvido; um julgamento em massa de 101 dirigentes ocorreu entre dezembro de 1983 e janeiro de 198494. O Fedaiyan-e Khalq, dividido desde 1979 entre a facção Maioria — que "emprestou seu apoio incondicional ao Estado" — e a Minoria, que rompeu formalmente em maio de 1981 depois de ser barrada de publicar suas posições no jornal Kar, teve a Minoria golpeada pela repressão de junho de 1981, perdendo "centenas de apoiadores" e sendo empurrada para a região da rebelião curda35. As prisões e confissões do Tudeh em fevereiro de 1983 "desiludiram a Maioria quanto à própria política ingênua, mas já era tarde": as ondas de prisão seguintes atingiram as facções remanescentes do Fedaiyan; a maioria dos líderes deixou o país até a primavera de 1983, e os da facção Maioria pediram asilo na URSS, sendo alojados em Tashkent35. O Mojahedin-e Khalq, segundo a resenha de Farhang, foi responsável, entre 1981 e meados de 1983, por quase 200 assassinatos de dirigentes da República Islâmica e mais de 500 mortes de guardas revolucionários, mas perdeu "capacidade de cometer atos violentos" por volta de meados de 1983, sob a repressão que a mesma fonte, citando o livro de Abrahamian, atribui as 12.250 execuções políticas já mencionadas11.
O testemunho de Halliday, de agosto de 1979, mostra a coalizão já se desfazendo por dentro meses antes de qualquer uma dessas datas. Em Rasht, um cartaz mostrava a revolução islâmica esmagando "seus dois inimigos: a bandeira dos Estados Unidos e a foice e o martelo" — a autodefinição do novo poder contra os dois, num momento em que a esquerda ainda se via como aliada37. Nas mesmas ruas havia uma palavra de ordem — "morte a Bazargan" — vinda da esquerda, contra o governo provisório, o que corrobora por testemunho o que Milani descreve como o ataque da esquerda ao reformismo de Bazargan3724. Em Siahkal, onde os Fedaiyan haviam feito sua primeira ação armada em 1971, Halliday escreveu que "quase não há sinal de Khomeini": as únicas faixas na rua eram do Mojahedin e do Fedaiyan37. Em Lahijan, os dois grupos tinham escritórios grandes na rua principal, e o hospital local fora rebatizado com o nome de Mossadegh37. Halliday também registrou o cotidiano sob o novo poder: a Guarda Islâmica apontando armas para uma mulher de biquíni numa piscina e, quando ela se recusou a sair, esvaziando a piscina; um dono de café mandando viajantes estacionarem meio quilômetro adiante e comerem atrás de uma cortina para escapar da Guarda, "não importa que o Alcorão permita que viajantes comam durante o Ramadã" — observação de que a imposição excedia a própria norma religiosa é do próprio Halliday37. O general Nasseri, chefe da SAVAK de 1965 a 1978, foi executado em fevereiro de 197937.
A historiadora Janet Afary, na Encyclopaedia Britannica, resume o mecanismo central de toda essa eliminação: "através da tomada da embaixada, os apoiadores de Khomeini puderam reivindicar ser tão 'anti-imperialistas' quanto a esquerda política. Isso lhes deu, em última instância, a capacidade de suprimir a maioria dos opositores de esquerda e moderados do regime" (tradução nossa)15. É convergente com o que Milani e o verbete de Vahabzadeh documentam por caminhos independentes — a esquerda ajudando, por seus próprios atos, a consolidar a posição de quem a eliminaria depois —, mas cada fonte diz o que diz, e não fundimos as três numa única afirmação sem autoria: é tese de Afary, corroborada, não fato estabelecido por nós2435. Afary também escreve que "a violência e a brutalidade frequentemente excederam as que haviam ocorrido sob o xá" — de novo, tese da autora, não constatação nossa15. Bazargan e Bani-Sadr foram, segundo a mesma fonte, "progressivamente afastados do poder" por conservadores que questionavam seu zelo revolucionário15.
As leituras historiográficas
Sobre por que a corrente clerical prevaleceu sobre as demais forças da coalizão, reunimos leituras com autor nomeado — e nenhuma delas sustenta, com essas palavras exatas e atribuição própria, nem "a revolução foi sequestrada" nem "a vitória clerical era inevitável". A linha vermelha se mantém: mostramos os fatos; quem conclui é o leitor.
A historiadora Naghmeh Sohrabi, da Brandeis University, em artigo de 2021 que consultamos na íntegra, examina como uma série de artigos escritos durante o processo revolucionário — não depois — deu forma a uma narrativa acadêmica que, segundo ela, "permanece em circulação até hoje"38. Para o verão de 1979, sua formulação é a de um país "ainda nos estertores de um levante revolucionário de múltiplos fios e múltiplas vozes, que só lentamente começava a se desagregar no que se tornaria uma luta de poder sangrenta" (tradução nossa)38. Sohrabi analisa especificamente o próprio Halliday, cuja contribuição, escreve ela, "demonstra os limites de uma erudição de inflexão ideológica": ele lia o movimento como quase marxista, reduzindo a "forças pró-Khomeini" uma identidade islâmica que só reconheceria mais tarde38. Usamos Halliday, portanto, pelo que ele viu — e Sohrabi, pelo que ele não conseguia ver; não descartamos a fonte lida por causa da crítica, e não a citamos como se seu enquadramento fosse neutro3738. Sohrabi resume ainda, de segunda mão, a tese clássica de Ervand Abrahamian em "Structural Causes of the Iranian Revolution" (MERIP, maio de 1980)38: a revolução explicada por uma contradição entre o desenvolvimento socioeconômico do país e o atraso de suas instituições políticas — Abrahamian, na síntese de Sohrabi38.
O sociólogo Charles Kurzman, em obra que não lemos diretamente, apenas por síntese de resenhas e descrições, examina cinco explicações concorrentes para o sucesso da revolução e as considera, cada uma, valiosas mas falhas, propondo em vez disso uma leitura que sublinha o caráter confuso, instável e imprevisível do momento — contestando, deliberadamente, qualquer explicação que faça o desfecho clerical parecer inevitável em retrospecto19. É a mesma tese antideterminista de Sohrabi, por caminho independente; ela é a perna que lemos diretamente, Kurzman a que não.
Said Amir Arjomand, em The Turban for the Crown (1988), obra que não lemos diretamente — distinta do verbete da Encyclopaedia Iranica do mesmo autor, que usamos amplamente ao longo deste artigo —, descreve o processo entre fevereiro de 1979 e dezembro de 1982 com uma periodização que já fala, segundo síntese que consultamos, em tomada clerical do poder em novembro de 1979, fim do poder dual e eliminação da oposição: uma leitura que trata a vitória clerical como processo político deliberado e faseado, não automático21. Misagh Parsa, em Social Origins of the Iranian Revolution (1989), também não lida diretamente, oferece explicação estrutural: segundo a síntese que consultamos, o poder foi transferido ao clero, e não a uma intelligentsia, porque a mesquita funcionou como espaço seguro de mobilização coletiva onde outros grupos não dispunham de infraestrutura equivalente20. Ervand Abrahamian, segundo citação de segunda mão via artigo acadêmico brasileiro, teria escrito que os redatores do anteprojeto constitucional imaginaram uma república islâmica apenas de nome, mas democrática em seu conteúdo — formulação que sustenta o que argumentamos aqui, que o desfecho não estava dado, mas que temos apenas por citação indireta, e por isso não reproduzimos entre aspas14. Val Moghadam, em artigo de 1987 na New Left Review que lemos em parte, atribui a derrota da esquerda iraniana a dois erros específicos: "negligência da questão da democracia" e "subestimação do poder do clero islâmico", culminando na "derrota retumbante" da "mini-guerra civil de 1981-1983"22.
O que não apuramos
Não localizamos, nesta apuração, nenhuma conexão brasileira documentável para o período de fevereiro a dezembro de 1979 — nem reação diplomática do Itamaraty, nem cobertura de imprensa brasileira de época, nem posição do governo Figueiredo, empossado em 15 de março de 1979. A tese de doutorado de Andrew Patrick Traumann sobre relações Brasil-Irã (1979-1985), na Universidade Federal do Paraná, seguiu inacessível — o mesmo timeout de servidor já registrado pelo artigo anterior desta série. O único material acadêmico brasileiro que localizamos e lemos diretamente é de relações internacionais, não de história diplomática bilateral, e uma matéria da CNN Brasil sem ângulo Brasil próprio1413. Também não localizamos material equivalente ao que reunimos sobre os curdos a respeito de árabes do Cuzistão ou turcomanos do Gorgan em 1979. A redação exata da cédula do referendo de março segue sem fonte que a reproduza a partir de documento primário — o mais próximo que temos são as duas descrições, não conciliadas, tratadas acima.
Leia antes
- Como a dinastia Pahlavi caiu e abriu caminho para a teocracia iraniana — cobre até 16 de janeiro de 1979, a saída do xá; começamos aqui exatamente onde aquele termina.
Leia depois
- Wilayat al-faqih: a doutrina que sustenta a República Islâmica, e a disputa que ela nunca venceu — a doutrina que mostramos aqui operando desde 5 de fevereiro de 1979, sem repetir a disputa jurídica de mil anos por trás dela.
- A estrutura de poder da República Islâmica (Líder Supremo, Conselho de Guardiões, Assembleia de Peritos, Majles, Judiciário, Guarda Revolucionária) — ainda não publicado nesta série.
- Mulheres no Irã pós-1979 (ainda não publicado nesta série).
- Minorias religiosas no Irã (ainda não publicado nesta série).
Fontes
Brookings Institution, "The Iranian Revolution: A Timeline of Events." https://www.brookings.edu/articles/the-iranian-revolution-a-timeline-of-events/ (abre em nova aba) · 🟢 · página institucional sem autoria individual creditada.
↩Gross, Samantha. "What Iran's 1979 revolution meant for US and global oil markets." Brookings Institution, 5 de março de 2019. https://www.brookings.edu/articles/what-irans-1979-revolution-meant-for-us-and-global-oil-markets/ (abre em nova aba) · 🟢
↩"Iran's referendum and the transformation to the Islamic Republic." Al Jazeera, 30 de março de 2019. https://www.aljazeera.com/features/2019/3/30/irans-referendum-and-the-transformation-to-the-islamic-republic (abre em nova aba) · 🟡 · mídia estatal do Catar; usado com atribuição do viés.
↩Hooglund, Eric. "The Gulf War and the Islamic Republic." MERIP Reports, 7 de julho de 1984. https://www.merip.org/1984/07/the-gulf-war-and-the-islamic-republic/ (abre em nova aba) · 🟢
↩Yavari, Neguin (atualizado por Eric Hooglund). "Freedom Movement (Nezhat-e Azadi Iran)." Encyclopedia of the Modern Middle East and North Africa, via Encyclopedia.com. https://www.encyclopedia.com/humanities/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/freedom-movement-nezhat-e-azadi-iran (abre em nova aba) · 🟢
↩"The 1979 Assembly of Experts for the Drafting of the Constitution Election." Iran Data Portal, Moynihan Institute of Global Affairs, Syracuse University. https://irandataportal.syr.edu/the-1979-assembly-of-experts-for-the-drafting-of-the-constitution-election/ (abre em nova aba) · 🟢
↩"Haunted Memories: The Islamic Republic's Executions of Kurds in 1979." Iran Human Rights Documentation Center. https://iranhrdc.org/haunted-memories-the-islamic-republics-executions-of-kurds-in-1979/ (abre em nova aba) · 🟢 · ONG de documentação de direitos humanos com sede nos EUA, metodologia baseada em reportagens de época e relatos de familiares.
↩"Interview with Tudeh's Kianuri." MERIP Reports, 10 de março de 1980 (entrevista original publicada em Elevtherotipia, Atenas, 27-28 de novembro de 1979). https://www.merip.org/1980/03/interview-with-tudehs-kianuri/ (abre em nova aba) · 🟢
↩"Iranian crackdown deals communist party a heavy blow." The Christian Science Monitor, 22 de julho de 1983. https://www.csmonitor.com/1983/0722/072246.html (abre em nova aba) · 🟢
↩Anistia Internacional. Documento AI Index MDE 13/12/81, 13 de dezembro de 1981, sobre a onda de execuções a partir de junho de 1981. https://www.iranrights.org/library/document/144 (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; o mesmo texto circula também catalogado no Abdorrahman Boroumand Center — é a mesma fonte, não duas, e citamos como tal.
↩Farhang, Mansour. Resenha de Ervand Abrahamian, Radical Islam: The Iranian Mojahedin. MERIP Reports, 8 de março de 1990. https://www.merip.org/1990/03/abrahamian-radical-islam-the-iranian-mojahedin/ (abre em nova aba) · 🟢 quanto à resenha, lida diretamente · 🔍 quanto às cifras atribuídas ao livro de Abrahamian, que não lemos diretamente.
↩National Security Archive. "1979 Iran Hostage Crisis Recalled." 4 de novembro de 2019. https://nsarchive.gwu.edu/briefing-book/iran/2019-11-04/1979-iran-hostage-crisis-recalled (abre em nova aba) · 🟢
↩"Como foi a Revolução de 1979 que instituiu regime dos aiatolás no Irã." CNN Brasil, 18 de junho de 2025, atualizado em 13 de janeiro de 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/como-foi-a-revolucao-de-1979-que-instituiu-regime-dos-aiatolas-no-ira/ (abre em nova aba) · 🟢 · imprensa brasileira mainstream, sem ângulo Brasil próprio.
↩Ferreira, Túlio Sérgio Henriques; Galvão, Pamella Noemi Rodrigues. "O Irã do Aiatolá Khomeini: uma batalha antiocidental sob a égide de Deus?" Revista Mescla (Universidade Federal de Ouro Preto). https://periodicos.ufop.br/mescla/article/download/4814/3700 (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; artigo acadêmico brasileiro. A citação de Abrahamian (2008, p.162) é tradução dos próprios autores — segunda mão em relação ao livro original.
↩Afary, Janet. "Iranian Revolution — Aftermath." Encyclopaedia Britannica, atualizado em 27 de julho de 2026. https://www.britannica.com/event/Iranian-Revolution/Aftermath (abre em nova aba) · 🟢 · verbete assinado pela historiadora Janet Afary, professora de estudos feministas na UC Santa Barbara, com checagem editorial da Britannica; não se enquadra no veto a enciclopédias coletivas ou geradas por IA.
↩Nota de pesquisa — não é fonte nomeada. Reúne, sob uma só marcação, quatro afirmações desta apuração obtidas por síntese de busca, sem autoria acadêmica identificada nem leitura direta de fonte primária: a estratégia do Tudeh sob Kianouri de apoio tático a Khomeini (revista mais adiante à luz da entrevista de Kianouri lida diretamente em 8); o mandato e a saída de Karim Sanjabi do Ministério das Relações Exteriores; a conferência das nacionalidades organizada pela Frente Nacional Democrática em junho de 1979; e o início do levante armado curdo em meados de março de 1979. 🔍
↩Ariav, Hagit; Ferragamo, Mariel. "The Kurds' Long Struggle With Statelessness." Council on Foreign Relations, atualizado em 7 de dezembro de 2022. https://www.cfr.org/articles/kurds-long-struggle-statelessness (abre em nova aba) · 🟢
↩"The Kurdish Massacre of 1979 in Iran: A Call for International Justice and Recognition." Hengaw Organization for Human Rights. https://hengaw.net/en/news/archive/61212 (abre em nova aba) · 🟡 · ONG curda-iraniana; a cifra de "~10 mil mortos" e a fatwa de jihad são atribuídas por ela a um relatório da Anistia Internacional de 2008 que não lemos diretamente — citação de segunda mão dentro de fonte já classificada com ressalva.
↩Kurzman, Charles. The Unthinkable Revolution in Iran. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2004. Conteúdo obtido por síntese de busca sobre resenhas e descrições do livro, não por leitura direta · 🔍
↩Parsa, Misagh. Social Origins of the Iranian Revolution. New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1989. Conteúdo obtido por síntese de busca · 🔍
↩Arjomand, Said Amir. The Turban for the Crown: The Islamic Revolution in Iran. Nova York: Oxford University Press, 1988. Sumário e descrição de capítulos obtidos por síntese de busca, não por leitura direta · 🔍 · não confundir com o artigo do mesmo autor na Encyclopaedia Iranica, citado por leitura direta em 23.
↩Moghadam, Val. "Socialism or Anti-Imperialism? The Left and Revolution in Iran." New Left Review I/166, novembro-dezembro de 1987. https://newleftreview.org/issues/i166/articles/val-moghadam-socialism-or-anti-imperialism-the-left-and-revolution-in-iran.pdf (abre em nova aba) · 🟢 · lido parcialmente; o trecho usado vem da introdução do artigo.
↩Arjomand, Said Amir. "Constitution of the Islamic Republic." Encyclopaedia Iranica, vol. VI, fasc. 2, pp. 150-158, publicado em 15 de dezembro de 1992, atualizado em 30 de junho de 2016. https://iranicaonline.org/articles/constitution-of-the-islamic-republic (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; fonte central para a sequência do anteprojeto constitucional, a Assembleia de Especialistas e o percentual de 98,2%.
↩Milani, Mohsen M. "Hostage Crisis." Encyclopaedia Iranica, vol. XII, fasc. 5, pp. 522-535, publicado em 15 de dezembro de 2004, atualizado em 11 de junho de 2013. https://iranicaonline.org/articles/hostage-crisis (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; autor é professor de política na University of South Florida.
↩Anistia Internacional. Law and Human Rights in the Islamic Republic of Iran. AI Index MDE 13/03/80, fevereiro de 1980. https://www.amnesty.org/en/wp-content/uploads/2021/06/mde130031980en.pdf (abre em nova aba) · 🟢 · PDF lido na íntegra, com missão em Teerã de 12 de abril a 1º de maio de 1979, cobrindo o período até 14 de setembro de 1979 e 899 casos julgados por tribunais revolucionários; citações literais conferidas contra o PDF (o indiciamento de Hoveyda, incluindo a fala do promotor; o depoimento de Amir-Entezam; a frase da Anistia sobre o limite do que apurou no Curdistão; o incidente de 11 de março); o restante do relatório, em paráfrase.
↩Nematollahi, Niloufar. "Those Who Tell You What to Wear Today Will Tell You What to Think Tomorrow: Revisiting International Women's Day 1979 in Iran." e-flux Notes, 6 de março de 2026. https://www.e-flux.com/notes/6783463/those-who-tell-you-what-to-wear-today-will-tell-you-what-to-think-tomorrow-revisiting-international-women-s-day-1979-in-iran (abre em nova aba) · 🟢
↩Afary, Janet; Anderson, Kevin B. "Woman, Life, Freedom: The Origins of the Uprising in Iran." Dissent Magazine, inverno de 2023. Trecho de abertura lido via https://www.dissentmagazine.org/online_articles/women-life-freedom-iran-uprising-origins/ (abre em nova aba) · 🟢 quanto ao trecho lido (a introdução, com
↩www.) · texto integral não acessado.Siamdoust, Nahid. "Woman, Life, Liberty: A Slogan One Hundred Years in the Making." New Lines Magazine, 4 de outubro de 2022. https://newlinesmag.com/argument/woman-life-liberty-a-slogan-one-hundred-years-in-the-making/ (abre em nova aba) · 🟢
↩
↩yearzero1979.org— projeto de arquivo do material filmado em março de 1979 pelo coletivo feminista francês des femmes (Claudine Mulard, Sylvina Boissonnas, Sylviane Rey, Michelle Muller), iniciado por Katayoon Barzegar, editado por Niloufar Nematollahi e Jose Morales. https://yearzero1979.org/story-of-year-zero/ (abre em nova aba) e https://yearzero1979.org/ (abre em nova aba) · 🟢 · autopublicado pelas próprias cineastas testemunhas; as duas páginas do site divergem entre si sobre a data final do protesto (13 ou 15 de março)."Iranian People Vote for an Islamic Republic." The Economist, 7 de abril de 1979, via Encyclopedia.com. https://www.encyclopedia.com/politics/legal-and-political-magazines/iranian-people-vote-islamic-republic (abre em nova aba) · 🟢 · cobertura de época, uma semana após o referendo, sem autoria individual creditada.
↩Jalali, Bahman. Artigo sobre o referendo de 1979. Kayhan London, 31 de março de 2016. https://kayhan.london/1395/01/12/39125/ (abre em nova aba) · 🟡 · imprensa da diáspora monarquista/antirregime; usado com atribuição do viés.
↩"ناگفتههایی از روز جمهوری اسلامی" ("Histórias não contadas do Dia da República Islâmica"). Hawzah News Agency, 2 de março de 2025. https://www.hawzahnews.com/news/1244664/ (abre em nova aba) · 🔴 · agência ligada ao establishment clerical/seminarista da República Islâmica; usada apenas como corroboração cruzada, nunca como fonte isolada de fato contestável.
↩"نتایج جالب رفراندوم جمهوری اسلامی در فروردین ۵۸..." Khabaronline, 31 de março de 2024, atribuindo os números a declaração de Ahmad Nurbakhsh (Ministério do Interior) de 4 de abril de 1979. https://www.khabaronline.ir/news/1889707/ (abre em nova aba) · 🟡 · portal privado iraniano de linha reformista, sujeito à censura do Estado.
↩Vahabzadeh, Peyman. "FADĀʾIĀN-E ḴALQ." Encyclopaedia Iranica, publicado em 7 de dezembro de 2015, atualizado em 30 de março de 2016. https://iranicaonline.org/articles/fadaian-e-khalq (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; a data de 3 de novembro de 1979 dada por este verbete para a tomada da embaixada diverge de 12, 24 e 25, que dão 4 de novembro — citamos este verbete apenas pela adesão política do Fedaiyan, não pela data.
↩Abdorrahman Boroumand Center. "The Clash of the Ayatollahs." 11 de fevereiro de 2022. https://www.iranrights.org/library/document/3906 (abre em nova aba) · 🟡→🟢 · organização fundada pela família de um opositor assassinado, parte interessada; usada porque o relatório é densamente notado contra imprensa contemporânea (Ettelaat, Kayhan, AP, New York Times, Le Monde) e declara sua metodologia. Registra tanto a cifra de comparecimento de Lahuti (~40%, em entrevista de dezembro de 1979) quanto, de forma independente, a descrição da Assembleia de Especialistas corroborada por 6 — não o número desta.
↩Halliday, Fred. "Letter from Gilan." MERIP Reports nº 86, 10 de março de 1980, sobre viagem feita durante o Ramadã do verão de 1979. https://www.merip.org/letter-from-gilan/ (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; autor era professor na London School of Economics.
↩Sohrabi, Naghmeh. "MERIP's First Decade of Iran Coverage: From Political Challenge to Revolution." MERIP, novembro de 2021. https://merip.org/2021/11/merips-first-decade-of-iran-coverage-from-political-challenge-to-revolution/ (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; autora é professora de história do Oriente Médio e diretora de pesquisa do Crown Center for Middle East Studies, Brandeis University.
↩Algar, Hamid. "KHOMEINI i. Life." Encyclopaedia Iranica, 14 de dezembro de 2020. https://iranicaonline.org/articles/khomeini-i (abre em nova aba) · 🟢 · lido na íntegra; tradutor e principal divulgador acadêmico de Khomeini em língua inglesa, verbete simpático ao biografado — usado aqui para cronologia, nomes e citações de fontes primárias que o próprio Algar reproduz, não para juízos de valor dele. Contém um erro de data ("29 de fevereiro de 1979", data inexistente) que não reproduzimos. A mensagem de Khomeini sobre a cédula do referendo é atribuída por Algar às obras reunidas de Khomeini, Ṣaḥifa-ye Emām, vol. VI, que por sua vez remetem a Davāni, vol. X, pp. 300-301 — textos que não lemos diretamente.
↩Rare Historical Photos. "Women Protesting Forced Hijab Days After the Iranian Revolution: Photos from 1979." Atualizado em 6 de novembro de 2025. https://rarehistoricalphotos.com/women-protesting-hijab-1979/ (abre em nova aba) · sem classificação em
↩docs/FONTES.md· site de curadoria de fotos, sem processo editorial acadêmico aparente e sem citar fonte para os números que reproduz; usado apenas para explicar por que não adotamos a cifra de "100 mil".My Stealthy Freedom. "Women Protesting Forced Hijab (1979)." 25 de abril de 2019. https://www.mystealthyfreedom.org/women-protesting-forced-hijab-1979/ (abre em nova aba) · 🟡 · plataforma de ativismo antirregime, não instituição de pesquisa; mesma função de 40.
↩Mottahedeh, Negar. Whisper Tapes: Kate Millett in Iran. Stanford University Press, 2019. Excerto oficial, "Overture". https://www.sup.org/books/middle-east-studies/whisper-tapes/excerpt/overture (abre em nova aba) · 🟢 · lido diretamente; autora é professora na Duke University; citações conferidas contra o HTML da editora, autorizadas entre aspas com atribuição a Mottahedeh. A nota 1 da autora, sobre a fonte do decreto do véu de 1936, não foi lida por esta apuração.
↩Ziaee, Donya. "Iran's 1979 women's uprising, and what it teaches us today." CBC Radio Ideas, 5 de outubro de 2022. https://www.cbc.ca/radio/ideas/iran-women-protests-1979-revolution-1.6605982 (abre em nova aba) · 🟢 · lida diretamente; reportagem assinada, emissora pública canadense, construída sobre entrevistas com participantes nomeadas (Haideh Daragahi, Minoo Jalali) feitas para um documentário de março de 2019; atribuída às pessoas nomeadas, não à emissora.
↩Hoodfar, Homa. "Iranian women risk arrest — 'Daughters of the Revolution'." Maclean's, 7 de março de 2018. https://www.macleans.ca/news/world/iranian-women-risk-arrest-daughters-of-the-revolution/ (abre em nova aba) · 🟡 · lida diretamente; artigo de opinião de testemunha-especialista (professora emérita de antropologia, Concordia University; presa em Teerã em março de 2016, acusada de "flertar com o feminismo").
↩