Verbete
Marja
Marja · marjaʿ al-taqlīd (مرجع التقليد), "referência de emulação"
Marja — abreviação de marja al-taqlid — é o grande aiatolá xiita duodecimano que um leigo escolhe livremente como referência de emulação: a quem recorre para saber como agir, seguindo suas fatwas sem rederivá-las das fontes.
A instituição do marja se consolidou ao longo do século XIX: antes de Khomeini, a responsabilidade herdada dos Imãs ocultos era exercida coletivamente por vários marjas, cada leigo xiita livre para escolher, entre os grandes aiatolás vivos, aquele que seguiria1.
A doutrina da wilayat al-faqih, formulada por Khomeini, concentra essa autoridade historicamente distribuída num só jurista, a quem os demais marjas deveriam, na formulação de Khomeini, se submeter — e esse líder único passa a ser nomeado e destituível por um órgão de Estado, não mais escolhido livremente pelos fiéis1. Na redação original de 1979, o artigo 107 da Constituição iraniana exigia que o próprio líder da República Islâmica fosse marja-i taqlid, ou integrasse um conselho de liderança de três a cinco juristas com essa qualificação2. Nenhuma das duas exigências está na Constituição vigente: a revisão de 1989 retirou a exigência de marjaiyat2.
A crise em torno desse requisito levou à própria revisão. Em 9 de maio de 1988, Khomeini enviou ao comitê revisor uma carta aconselhando que se abandonasse a exigência de marjaiyat para a liderança, e manifestando a opinião de que bastaria o reconhecimento como mojtahed-e adel (jurista justo) pela Assembleia de Peritos2. Ali Khamenei, eleito Líder Supremo em 4 de junho de 1989, era então apenas Hojjat al-Islam — um grau clerical abaixo de aiatolá, e portanto sem a qualificação de marja; segundo o cientista político Eric Lob, seu posto foi "elevado da noite para o dia" a grande aiatolá depois da escolha3.
O jurista Salihi Najafabadi chegou a arrolar cerca de doze diferenças entre a figura do marja tradicional e a do wali-yi faqih1. A tensão entre as duas autoridades já apareceu em caso concreto: em 1983, segundo a mesma fonte, Khomeini, na qualidade de wali-yi faqih, ordenou que a guerra com o Iraque prosseguisse, enquanto o aiatolá Hasan Tabatabai Qummi, na qualidade de marja, emitiu fatwa pelo fim do conflito — episódio registrado por uma única fonte, sem segunda confirmação independente localizada1.
Não confundir com: taqlid, a prática de seguir uma autoridade — marja é a pessoa seguida, taqlid é o ato de segui-la; aiatolá, título que todo marja ostenta, mas nem todo aiatolá é marja: marja é o aiatolá especificamente escolhido por leigos como referência; faqih, termo genérico para "jurista" que a doutrina wilayat al-faqih usa para designar quem deve governar — um marja pode ou não ser o faqih que governa; wilayat al-faqih, a doutrina que concentra num único faqih a autoridade historicamente distribuída entre vários marjas.
Leia mais: Wilayat al-faqih: a doutrina que sustenta a República Islâmica, e a disputa que ela nunca venceu
Fontes
Fontes
İsmail Safa Üstün, "VELÂYET-i FAKĪH," TDV İslâm Ansiklopedisi, 2013. https://islamansiklopedisi.org.tr/velayet-i-fakih (abre em nova aba) · 🟢 · fonte-espinha de boa parte do artigo-fonte sobre a wilayat al-faqih; onde não há segunda fonte independente, isso é indicado no corpo.
↩Saïd Amir Arjomand, "Constitution of the Islamic Republic," Encyclopaedia Iranica, vol. VI, fasc. 2, pp. 150–158. https://iranicaonline.org/articles/constitution-of-the-islamic-republic (abre em nova aba) · 🟢 · cita, em tradução do inglês, o artigo 107 original na tradução de Hamid Algar (Berkeley: Mizan Press, 1980) — redação de 1979, hoje superada pela emenda de 1989.
↩Eric Lob, "How does Iran go about selecting a new supreme leader, and who is in the running?", The Conversation / FIU News, 2024. https://theconversation.com/how-does-iran-go-about-selecting-a-new-supreme-leader-and-who-is-in-the-running-277249 (abre em nova aba) · 🟢 · autor é professor associado de Ciência Política e Relações Internacionais na Florida International University, também afiliado ao Carnegie Endowment for International Peace.
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