Verbete
Zina
Zina · zinā (زنا), "relação sexual fora do casamento"
Zina é a relação sexual fora do casamento, um dos delitos hudud da doutrina jurídica islâmica clássica — cem açoites pelo texto alcorânico, sem distinção entre solteiro e casado; o apedrejamento, reservado a quem é casado, não está no Alcorão e vem da Sunna12.
O que o texto diz, e o que vem da Sunna
O fundamento textual de zina é o Alcorão 24:2: cem açoites, sem distinção explícita entre solteiro e casado1. O apedrejamento (rajm) não está no Alcorão — vem dos hadiths sobre o caso de Ma'iz ibn Malik, registrados em Bukhari 6824–6826 e em versões paralelas de Muslim 1691–1695, e de um relato atribuído a Umar ibn al-Khattab sobre um versículo de apedrejamento que teria existido e não sobreviveu na compilação escrita do Alcorão23. Esse relato sustenta, para a maioria dos juristas clássicos sunitas e para o xiismo, a legitimidade do apedrejamento como pena de origem revelada mesmo sem constar do texto alcorânico atual; é rejeitado pelo zahirismo, corrente minoritária histórica, e por reformistas modernos, que apontam a fragilidade da cadeia de transmissão do relato42. Rudolph Peters, na obra de referência do campo, documenta que a pena de apedrejamento é fundada em hadith, não no Alcorão, que em 24:2 só prevê açoite4.
A prova mais exigente de toda a doutrina hudud
Zina é o único delito hudud que a doutrina majoritária, transescolar, condiciona a quatro testemunhas homens, adultos, muçulmanos, de reputação idônea, que tenham presenciado o próprio ato — não circunstâncias, não indícios45. Para os demais crimes hudud, duas testemunhas ou confissão bastam; a exigência de quatro é específica de zina45. A confissão é meio de prova válido, mas retratável até a execução da pena — inclusive durante ela, segundo a doutrina majoritária hanafi: o relato do caso de Ma'iz registra que ele tentou fugir durante o apedrejamento, e há divergência interna sobre se isso deveria ter suspendido a execução42. A doutrina retrata o Profeta como ativamente desencorajando a confissão de Ma'iz — perguntando repetidas vezes se ele não teria apenas beijado ou olhado a mulher, mandando-o embora, checando sua sanidade, e só aceitando a confissão na quarta vez, quando Ma'iz precisou descrever o ato com clareza inequívoca23. Quem acusa zina e não produz as quatro testemunhas é, pela lógica do crime de qadhf, ele próprio açoitado por força do Alcorão 24:4 — arquitetura que, segundo Mohammad Hashim Kamali, cria desincentivo pesado tanto à denúncia quanto à confissão67.
Como o Estado iraniano dilui a prova
O Código Penal Islâmico do Irã de 2013 fixa apedrejamento como pena corporal do adúltero e da adúltera casados; se a execução do apedrejamento não for possível, a pena passa a morte por enforcamento, mediante proposta do tribunal que emitiu a decisão final8. A pena se condiciona a ehsan — casamento permanente, puberdade, sanidade e capacidade ou ocorrência de relação vaginal9. O código também institui o mecanismo do 'ilm al-qadi — "conhecimento do juiz": permite ao magistrado condenar por zina com base em seu próprio conhecimento do caso, sem os meios de prova formais de quatro testemunhas ou quatro confissões. Quando a condenação vem por esse caminho, a pena passa do apedrejamento para cem açoites — o mecanismo dilui o padrão de prova exigido, mas também rebaixa a pena nesse trajeto específico1011.
Aplicação assimétrica: Paquistão e Nigéria
No Paquistão, as Hudood Ordinances de 1979 fundiram zina e estupro (zina-bil-jabr) sob o mesmo regime de prova de quatro testemunhas: mulheres que denunciavam estupro e não conseguiam produzir quatro testemunhas oculares do próprio ato viam a denúncia não provada tratada, na lógica do sistema, como confissão de zina consensual. A reforma de 2006 retirou o estupro do regime hudud, mas manteve o resto do arcabouço de 1979 para zina consensual1213. Na Nigéria, nos casos de Safiya Hussaini, em Sokoto, e de Amina Lawal, em Katsina — ambas condenadas por zina em primeira instância, ambas com a sentença anulada em apelação —, os homens apontados como parceiros foram liberados por falta de provas, enquanto as mulheres, grávidas ou com filho recém-nascido — a própria "prova" que motivara a acusação —, foram condenadas14151617.
Não confundir com: hudud, a categoria de crimes de pena fixa da qual zina é um dos cinco tipificados na doutrina clássica; qadhf, a acusação infundada de zina, punida com oitenta açoites e inabilitação do testemunho de quem acusa sem provar; ta'zir, a categoria discricionária que hoje sustenta, no Irã, a punição da ausência de hijab — um crime distinto, às vezes confundido com zina na cobertura corrente.
Leia mais: Hudud: os crimes, as penas e a prova · Código Penal Islâmico do Irã
Fontes
Fontes
Alcorão 24:2 — https://quran.com/24/2 (abre em nova aba) · tradução Nasr: https://quranenc.com/pt/browse/portuguese_nasr/24/2 (abre em nova aba) · fonte primária. 🟢
↩Sahih al-Bukhari 6824–6826, "Livro dos Hudud" — https://sunnah.com/bukhari:6824 (abre em nova aba) · caso de Ma'iz ibn Malik. 🟢 🔍 Acesso direto retornou HTTP 403 nesta pesquisa; conteúdo reconstruído por busca indexada, não por leitura da página — não citamos texto literal.
↩Sahih Muslim 1691–1695, "Livro dos Hudud" — https://sunnah.com/muslim:1695b (abre em nova aba) · versões paralelas do caso de Ma'iz. 🟢 🔍 Mesma ressalva de acesso do item anterior.
↩Rudolph Peters, Crime and Punishment in Islamic Law: Theory and Practice from the Sixteenth to the Twenty-First Century, Cambridge University Press, 2005, cap. 2 "The classical doctrine" (pp. 6–68). Paginação confirmada por busca indexada do Google Livros, não por leitura corrida; cotejo com exemplar físico recomendado antes da publicação final. 🟢
↩Corroboração cruzada sobre o padrão de quatro testemunhas para zina exigir visão direta do ato — múltiplas fontes de resumo convergem no ponto, mas nenhuma leitura direta de obra acadêmica de primeira linha foi feita especificamente para esta formulação. 🟡 usada só como reforço; a âncora é Peters 4.
↩Alcorão 24:4 — https://quran.com/24/4 (abre em nova aba) · fonte primária. 🟢
↩Mohammad Hashim Kamali, Crime and Punishment in Islamic Law: A Fresh Interpretation, Oxford University Press, 2019 — https://global.oup.com/academic/product/crime-and-punishment-in-islamic-law-9780190910648 (abre em nova aba). 🟢 🔍 Não lido diretamente; reconstruído via página da editora e resumos/resenhas acadêmicas.
↩Legal Deputy to the Judiciary of the Islamic Republic of Iran, "Islamic Penal Code — The Islamic Republic of Iran" (tradução para o inglês por Mohsen Mir Mohammad Sadeghi, tradutor certificado do Judiciário), 2016, publicado via UNODC Sherloc — https://sherloc.unodc.org/cld/uploads/res/islamic-penal-code_html/Islamic_Penal_Code.pdf (abre em nova aba) · 🟢 — tradução do próprio Estado iraniano, lida diretamente.
↩Human Rights Watch, "Iran: Proposed Penal Code Retains Stoning", 3 de junho de 2013 — https://www.hrw.org/news/2013/06/03/iran-proposed-penal-code-retains-stoning (abre em nova aba) · 🟢 — lido diretamente.
↩Human Rights Watch, "Codifying Repression: An Assessment of Iran's New Penal Code", 28 de agosto de 2012 — https://www.hrw.org/report/2012/08/28/codifying-repression/assessment-irans-new-penal-code (abre em nova aba). 🟢
↩Justice for Iran, "Iran's new penal code retains the punishment of stoning" — https://justice4iran.org/6011/ (abre em nova aba) · ONG de direitos humanos focada no Irã, natureza de advocacy. 🟡
↩Human Rights Watch, "Pakistan: Proposed Reforms to Hudood Laws Fall Short", 6 de setembro de 2006 — https://www.hrw.org/news/2006/09/06/pakistan-proposed-reforms-hudood-laws-fall-short (abre em nova aba). 🟢
↩Islamic Law Blog, Harvard Law School, "The Protection of Women Act vs. the Hudood Ordinance: A Federal Shariat Court Challenge", 13 de janeiro de 2015 — https://islamiclaw.blog/2015/01/13/the-protection-of-women-act-vs-the-hudood-ordinance-a-federal-shariat-court-challenge/ (abre em nova aba) · publicação acadêmica assinada, hospedada por Harvard Law School. 🟢
↩Amnesty International UK, "Nigeria: Warning over Sharia courts after Safiya Hussaini acquittal" — https://www.amnesty.org.uk/knowledge-hub/all-resources/nigeria-warning-over-sharia-courts-after-safiya-hussaini-acquittal/ (abre em nova aba). 🟢
↩Amnesty International UK, "Nigeria: Amina Lawal must not face death by stoning" — https://www.amnesty.org.uk/knowledge-hub/all-resources/nigeria-amina-lawal-must-not-face-death-stoning/ (abre em nova aba). 🟢
↩Feminist Majority Foundation, "Amina Lawal Wins Appeal Against Stoning", setembro de 2003 — https://feminist.org/news/amina-lawal-wins-appeal-against-stoning/ (abre em nova aba) · organização de advocacy, não listada em
↩docs/FONTES.md. 🟡 autoclassificado; fato relatado corroborado por 15.Human Rights Watch, "'Political Shari'a'? Human Rights and Islamic Law in Northern Nigeria", 21 de setembro de 2004 — https://www.hrw.org/report/2004/09/21/political-sharia/human-rights-and-islamic-law-northern-nigeria (abre em nova aba). 🟢
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