Verbete
Ta'zir
Photo by KATRIN BOLOVTSOVA
Ta'zir · taʿzīr (تعزير), "pena discricionária"
Ta'zir é a pena discricionária que o juiz ou o Estado fixam para qualquer crime que não seja hudud nem qisas, e que na prática cobre a maior parte do direito penal de qualquer país que hoje invoque a Sharia1.
A categoria que sobra
Photo by KATRIN BOLOVTSOVA
O direito penal clássico divide os crimes em três categorias. Hudud é o "direito de Deus", com pena fixa e irrenunciável. Qisas é o "direito do homem", retaliação que pode ser dispensada por perdão ou indenização. Ta'zir é a terceira e a mais aberta: o texto revelado não fixa a pena, e cabe ao juiz ou ao legislador decidir a sanção1. As próprias escolas divergem sobre onde passa a fronteira. No consumo de álcool, as escolas hanafi e maliki fixam oitenta açoites como hadd; a shafi'i e a hanbali fixam quarenta, e o governante pode acrescentar mais quarenta como ta'zir discricionário. Ou seja, mesmo entre quem trata o crime como hadd, parte da pena já nasce discricionária4. Na apostasia (ridda), a escola hanafi e a doutrina xiita majoritária tratam o crime como mais próximo do ta'zir ou do direito de guerra do que do hadd clássico, ao contrário de malikis e shafi'is5.
Como o Código Penal Islâmico do Irã usa a categoria
No artigo 220 do código de 2013, duas traduções de peso divergem sobre o alcance da própria categoria. A tradução do Iran Human Rights Documentation Center (IHRDC) diz que a remissão ao artigo 167 da Constituição vale para "penas hadd que não são mencionadas" na lei; a tradução do próprio Judiciário iraniano diz que vale para "penas discricionárias não mencionadas", isto é, para ta'zir23. A diferença não é de estilo: dentro do código, hadd e pena discricionária são opostos, e dizer que a remissão à Sharia vale para hudud não previstos é bem mais amplo do que dizer que vale só para ta'zir não previsto3.
O artigo 91 do mesmo código vale só para quem tem menos de 18 anos e já atingiu a maturidade sexual. Nesses casos, em crimes hudud e qisas, o juiz pode trocar a pena fixa, inclusive a de morte, pelas penas do capítulo dos menores, se o réu não entende a natureza do crime ou que ele é ilegítimo, ou se há dúvida sobre o seu pleno desenvolvimento mental3. E a base penal usada hoje para criminalizar a ausência de hijab é justamente um dispositivo de ta'zir: o artigo 638 do Livro Cinco do código (ta'zirat, lei de 22 de maio de 1996, que a reforma de 2013 nunca revisou) pune quem "comete abertamente um ato haram (pecaminoso)" em lugar público com dois meses de prisão ou até 74 chibatadas, e é amplo o bastante para incluir, por nota do próprio artigo, mulheres que aparecem em público sem hijab6. É esse tipo de elasticidade que a categoria residual permite: a lei não precisa descrever a conduta com precisão para puni-la, porque a pena já nasce discricionária.
A escala das penas de ta'zir aparece também nas estatísticas de execução. Das ao menos 1.639 execuções que o Irã registrou em 2025 segundo a contagem da IHRNGO/ECPM (a Anistia Internacional, com metodologia própria, registrou ao menos 2.159 no mesmo ano9), quase metade foi por crimes de drogas, que são ta'zir, e não hudud nem qisas7. Mesmo categorias tratadas como próximas de hadd guardam margem de escolha: a Human Rights Watch registra que o crime de moharebeh, no código de 2013, tem penas variáveis (morte, amputação, crucificação não letal ou exílio interno), escolhidas pelo juiz dentro de uma faixa, e não uma pena fixa única8.
Não confundir com: hudud, os crimes de pena fixa e irrenunciável, o "direito de Deus"; qisas, a retaliação por homicídio e lesão corporal, que pode ser dispensada por perdão ou indenização; moharebeh, categoria própria do direito penal iraniano, tratada como crime capital de definição ampla, e não simplesmente como ta'zir.
Leia mais: Hudud: os crimes, as penas e a prova · Código Penal Islâmico do Irã
Fontes
Fontes
Rudolph Peters, Crime and Punishment in Islamic Law: Theory and Practice from the Sixteenth to the Twenty-First Century, Cambridge University Press, 2005, cap. 2 "The classical doctrine" (pp. 6–68). Paginação confirmada por busca indexada do Google Livros, não por leitura corrida; cotejo com exemplar físico recomendado antes da publicação final. 🟢
↩Iran Human Rights Documentation Center (IHRDC), "English Translation of Books I & II of the New Islamic Penal Code", 4 de abril de 2014 — https://iranhrdc.org/english-translation-of-books-i-ii-of-the-new-islamic-penal-code/ (abre em nova aba) · 🟢 — tradução não oficial, lida diretamente.
↩Legal Deputy to the Judiciary of the Islamic Republic of Iran, "Islamic Penal Code — The Islamic Republic of Iran" (tradução para o inglês por Mohsen Mir Mohammad Sadeghi, tradutor certificado do Judiciário), 2016, publicado via UNODC Sherloc — https://sherloc.unodc.org/cld/uploads/res/islamic-penal-code_html/Islamic_Penal_Code.pdf (abre em nova aba) · 🟢 — tradução do próprio Estado iraniano, 728 artigos, lida diretamente.
↩Divergência sobre número de açoites por consumo de álcool e sobre definição de khamr entre escolas — reconstruído via múltiplos resumos consistentes entre si (Tohed, RSIS International Journal, Studocu), nenhum individualmente forte. 🟡 corroboração cruzada, não fonte acadêmica de primeira linha confirmada por leitura direta.
↩Divergência sobre inclusão de ridda no rol dos hudud entre escolas — via resumo de busca que cita literatura acadêmica sobre o tema (o Muhadhdhab de Abu Ishaq al-Shirazi; al-Sarakhsi; Ibn al-Humam) sem nomear a obra-fonte primária com precisão suficiente para citação direta. 🟡 🔍 verificação pendente.
↩Iran Human Rights Documentation Center (IHRDC), "Islamic Penal Code of the Islamic Republic of Iran – Book Five" (tradução não oficial). https://iranhrdc.org/islamic-penal-code-of-the-islamic-republic-of-iran-book-five/ (abre em nova aba) · 🟢 — lido diretamente; Livro Cinco (ta'zirat), aprovado em 22 de maio de 1996, não revisado pela reforma de 2013 e ainda em vigor.
↩Iran Human Rights (IHRNGO) e ECPM, "Annual report on the death penalty in Iran 2025" — https://www.iranhr.net/en/reports/44/ (abre em nova aba). 🟢/🟡 IHRNGO já classificado em
↩docs/FONTES.md§5 como referência internacional na contagem de execuções no Irã.Human Rights Watch, "Codifying Repression: An Assessment of Iran's New Penal Code", 28 de agosto de 2012 — https://www.hrw.org/report/2012/08/28/codifying-repression/assessment-irans-new-penal-code (abre em nova aba) · 🟢 — lido diretamente.
↩Anistia Internacional, "Executions surge to highest recorded figure in 44 years" (divulgação do relatório Death Sentences and Executions 2025), 18 de maio de 2026. https://www.amnesty.org/en/latest/news/2026/05/executions-surge-highest-recorded-figure-44-years/ (abre em nova aba) · 🟢 — "Iranian authorities [...] executed at least 2,159 people" em 2025, 998 delas por crimes de drogas. Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.
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