Verbete
Qisas
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Qisas · qiṣāṣ (قصاص), "retaliação equivalente"
Qisas é o haqq al-adami ("direito do homem") do direito penal islâmico clássico: a retaliação equivalente por homicídio ou lesão corporal, tratada como direito privado da vítima ou da família dela, que pode exigir a execução, aceitar uma indenização (diya) ou perdoar o agressor1.
Qisas e hudud: a diferença
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O que separa as duas categorias é a possibilidade de perdão. Um "direito de Deus" (hudud) não pode ser perdoado por um particular, porque a doutrina não trata a ofensa como feita contra um particular. Já o qisas aceita acordo com a família, porque a mesma lógica trata a ofensa como feita contra a vítima ou seus herdeiros1. Por isso, uma sentença de morte por homicídio num tribunal iraniano costuma ser qisas: decisão da família da vítima, e não imposição direta do Estado sobre um "direito de Deus"1.
O qisas também fica suspenso pela doutrina de ahkam al-bughat (regras sobre a rebelião armada): quem se rende ou é capturado como combatente rebelde não responde por qisas nem por hudud pelo que fez no confronto, só por crimes fora dele5.
Como o Estado iraniano aplica
O Código Penal Islâmico do Irã, de 2013, trata homicídio e lesão corporal como qisas: retaliação equivalente, direito privado da família da vítima, que escolhe entre execução, indenização (diya) ou perdão2. O artigo 301 põe duas condições para aplicar o talião. O agressor não pode ser pai ou ascendente paterno da vítima. E a vítima precisa ser "sã e igual ao agressor em termos de religião", com uma ressalva: se a vítima é muçulmana, a religião diferente do agressor não impede o talião3. Pai e avô paterno nunca respondem por qisas. Segundo Farshid Rafougaran, respondem no lugar disso por diya e por pena discricionária, o que ele chama de "discriminação sem justificativa lógica" e que, para ele, incentiva a violência doméstica4. O artigo 310 fixa uma hierarquia por religião para o talião em geral3. O artigo 382 diz que, quando a vítima é mulher muçulmana, o talião só é executado depois que a família dela paga metade da diya integral de um homem, e essa regra vale só se o agressor também for muçulmano3.
Os números
Em 2025, o Irã registrou ao menos 1.639 execuções, centenas delas por qisas (homicídio), segundo a contagem da IHRNGO/ECPM6. A Anistia Internacional, com metodologia própria, registrou ao menos 2.159 execuções no mesmo ano12. Em 2024, a Iran Human Rights (IHRNGO) contou ao menos 419 execuções por homicídio ou qisas, entre elas 19 de mulheres, o maior número de execuções por qisas desde 20107. No Afeganistão, em maio de 2023, uma autoridade judicial do Talibã anunciou 175 sentenças de qisas e 37 de apedrejamento, além de 103 a outras penas hudud. Os números são do próprio regime, e não há como verificá-los de forma independente891011.
Não confundir com: hudud, os crimes tratados como "direito de Deus", com pena fixa, que nenhuma parte privada pode renunciar (o qisas é "direito do homem" e admite perdão ou indenização); diya, a indenização, que é uma das três opções dentro do qisas e não uma categoria à parte; ta'zir, a pena discricionária para tudo o que não é hudud nem qisas.
Leia mais: Hudud: os crimes, as penas e a prova · Código Penal Islâmico do Irã
Fontes
Fontes
Rudolph Peters, Crime and Punishment in Islamic Law: Theory and Practice from the Sixteenth to the Twenty-First Century, Cambridge University Press, 2005, cap. 2 "The classical doctrine" (pp. 6–68). Paginação confirmada por busca indexada do Google Livros, não por leitura corrida; cotejo com exemplar físico recomendado antes da publicação final. 🟢
↩Human Rights Watch, "Codifying Repression: An Assessment of Iran's New Penal Code", 28 de agosto de 2012 — https://www.hrw.org/report/2012/08/28/codifying-repression/assessment-irans-new-penal-code (abre em nova aba) · 🟢 — lido diretamente.
↩Legal Deputy to the Judiciary of the Islamic Republic of Iran, "Islamic Penal Code — The Islamic Republic of Iran" (tradução para o inglês por Mohsen Mir Mohammad Sadeghi, tradutor certificado do Judiciário), 2016, publicado via UNODC Sherloc — https://sherloc.unodc.org/cld/uploads/res/islamic-penal-code_html/Islamic_Penal_Code.pdf (abre em nova aba) · 🟢 — tradução do próprio Estado iraniano, 728 artigos, lida diretamente.
↩Peace-Mark, Farshid Rafougaran, "An overview of Article 301 of the Islamic Penal Code and the concept of discrimination in punishment", 29 de outubro de 2017 — https://www.peace-mark.org/en/articles/78-7-en/ (abre em nova aba) · 🟡 — organização de direitos humanos, autor crítico não identificado como jurista formal.
↩Sadia Tabassum, "Combatants, not bandits: the status of rebels in Islamic law", International Review of the Red Cross, vol. 93, nº 881, 2011 — https://international-review.icrc.org/sites/default/files/irrc-881-tabassum.pdf (abre em nova aba) · periódico acadêmico/institucional do CICV, revisado por pares; publicado em IRRC v. 93, n. 881 ("Conflict in Afghanistan II"), março de 2011, pp. 121–139, DOI 10.1017/S1816383111000117. 🟢 Resumo lido diretamente em 10 de setembro de 2026, na página do artigo na Cambridge Core, que hospeda a revista — o resumo sustenta que o direito islâmico da rebelião reconhece estatuto de combatente aos rebeldes e trata o território sob controle de fato deles como parte de jure do Estado. ⚠️ Escopo estrito: o corpo do artigo não foi lido, e continua atrás de assinatura; o PDF no sítio do CICV recusa acesso automatizado por firewall de aplicação, que não contornamos. O achado central (baghy suspende hudud/qisas, distinto de hiraba) foi corroborado de forma independente na checagem factual.
↩Iran Human Rights (IHRNGO) e ECPM, "Annual report on the death penalty in Iran 2025" — https://www.iranhr.net/en/reports/44/ (abre em nova aba). 🟢/🟡 IHRNGO já classificado em
↩docs/FONTES.md§5 como referência internacional na contagem de execuções no Irã.International Drug Policy Consortium (IDPC), reproduzindo "Annual Report on the Death Penalty in Iran 2024" de Iran Human Rights (IHRNGO), 28 de fevereiro de 2025 — https://idpc.net/publications/2025/02/annual-report-on-the-death-penalty-in-iran-2024 (abre em nova aba) · 🟢/🟡 — dados de execuções por qisas confirmados por leitura direta.
↩OHCHR, "Afghanistan: UN experts appalled by Taliban announcement on capital punishment", maio de 2023 — https://www.ohchr.org/en/press-releases/2023/05/afghanistan-un-experts-appalled-taliban-announcement-capital-punishment (abre em nova aba) · sistema multilateral. 🟢
↩OHCHR/UN News, "Afghanistan: Taliban urged to halt public floggings and executions", dezembro de 2022 — https://news.un.org/en/story/2022/12/1131782 (abre em nova aba). 🟢
↩Amnesty International, "Afghanistan: Taliban's cruel return to hardline practices with public floggings must be halted immediately", novembro de 2022 — https://www.amnesty.org/en/latest/news/2022/11/afghanistan-talibans-cruel-return-to-hardline-practices-with-public-floggings-need-to-be-halted-immediately/ (abre em nova aba). 🟢
↩RFE/RL, "Taliban Publicly Flogs Dozens Of People In Northern Afghanistan" — https://www.rferl.org/a/taliban-public-flogging-afghanistan/32980521.html (abre em nova aba) · emissora internacional financiada pelo governo dos EUA. 🟢 com atribuição.
↩Amnesty International, "Death penalty in 2025: Facts and figures", 18 de maio de 2026 — https://www.amnesty.org/en/latest/news/2026/05/death-penalty-in-2025-facts-and-figures/ (abre em nova aba) · 🟢 — "as autoridades iranianas realizaram ao menos 2.159 execuções", o maior número registrado pela Anistia no Irã desde 1981; 998 delas por drogas. A Anistia não separa as execuções por qisas. Lida diretamente em 23 de setembro de 2026.
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