Verbete
Mufti
Mufti · muftī (مفتي)
Mufti é o jurista islâmico autorizado a emitir fatwas — pareceres jurídico-religiosos em resposta a uma consulta, sem força vinculante própria.
O parecer que um mufti produz não nasce de leitura direta e inequívoca do texto revelado: nasce da aplicação da teoria das fontes do fiqh (usul al-fiqh), que fixa por consenso quatro raízes — Alcorão, Sunna, ijma e qiyas — e disputa, escola a escola, pelo menos mais cinco, entre elas o istihsan, a preferência jurídica que a escola hanafi defende e que al-Shafi'i rejeitou como legislar por conta própria sem base textual12. O próprio sistema classifica o resultado desse processo — a conclusão que um jurista deduz das fontes — como zann, conhecimento provável, sujeito a erro do intérprete, não como certeza3; a fatwa que um mufti assina é esse mesmo tipo de conclusão, aplicado à pergunta de um consulente.
Fatwa não vincula por si só — vale como parecer, não como sentença. Mas um Estado pode dar-lhe força de lei ao codificá-la, e o fez em sentidos opostos: o Egito, pela Lei nº 25 de 1929, adotou a opinião minoritária hanbali de Ibn Taymiyya sobre o repúdio triplo e a tornou obrigatória para todos os egípcios, inclusive os hanafis, maioria histórica do país4. O Marrocos seguiu direção oposta com a mesma lógica: a Mudawwana de 2004 não anunciou ruptura com a tradição, anunciou um novo exercício dela, justificado oficialmente pela escola maliki e pelo ijtihad5.
A Constituição iraniana aplica o mesmo mecanismo em escala mais ampla: o artigo 167 manda o juiz decidir, na falta de lei codificada, com base em "fontes islâmicas autorizadas e fatwas autênticas"6; o artigo 220 do Código Penal Islâmico de 2013 estende isso ao direito penal, autorizando o juiz a aplicar penas hudud não previstas no código recorrendo a essas mesmas fontes7. O efeito é transferir, para um único juiz de Estado, a escolha de qual fonte e qual fatwa vale em cada caso — no momento de aplicar uma pena irreversível7.
Não confundir com: ulemá, a categoria ampla de letrados religiosos da qual o mufti é um subtipo qualificado especificamente para fatwas; marja, a autoridade xiita de referência para taqlid, escolhida livremente pelo leigo — mecanismo distinto do mufti sunita; faqih, o jurista genérico especializado em fiqh: todo mufti é faqih, nem todo faqih emite fatwas como ofício.
Leia mais: Fontes do fiqh: como o direito islâmico decide o que conta como fonte
Fontes
Fontes
Encyclopedia.com, verbete "Usul al-Fiqh". https://www.encyclopedia.com/environment/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/usul-al-fiqh (abre em nova aba) · 🟢
↩TDV İslam Ansiklopedisi, verbete "İstihsan". https://islamansiklopedisi.org.tr/istihsan (abre em nova aba) · 🟢 enciclopédia acadêmica de referência; conteúdo processado por WebFetch, não lido em texto bruto.
↩Aron Zysow, The Economy of Certainty: An Introduction to the Typology of Islamic Legal Theory, Lockwood Press, 2013. https://www.lockwoodpress.com/product-page/the-economy-of-certainty (abre em nova aba) · 🟢 monografia acadêmica de referência.
↩Lei nº 25/1929 (Egito), art. 3 (repúdio triplo) · 🟢 reaproveitado de
↩sharia-vs-fiqh.Carnegie Endowment for International Peace, "What Morocco's Family Law Reform Process Shows About Governance in the Kingdom", julho de 2025. https://carnegieendowment.org/posts/2025/07/morocco-family-law-moudawana-reform-governance?lang=en (abre em nova aba) · 🟢
↩Constituição da República Islâmica do Irã (1979, rev. 1989), arts. 4, 12, 167. Constitute Project — https://www.constituteproject.org/constitution/Iran_1989 (abre em nova aba) · 🟢
↩Marzieh Tofighi Darian, "Between Law and Sharīʿa: The Principle of Legality under Iran's New Islamic Penal Code (Part I)", Islamic Law Blog, Harvard Law School, 22 de novembro de 2015. https://islamiclaw.blog/2015/11/22/between-law-and-shari%CA%BFa-the-principle-of-legality-under-irans-new-islamic-penal-code-part-i/ (abre em nova aba) · 🟢 — sustenta especificamente o artigo 220 do Código Penal Islâmico do Irã (2013).
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